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Riachão deixou obras inéditas gravadas e pode ganhar discos póstumos

A morte do cantor e compositor baiano Riachão nesta segunda-feira (30), aos 98 anos, deixa um vácuo no samba e na música baiana. Com muitos anos de carreira e extenso trabalho de composição, Clementino Rodrigues gravou menos do que merecia e poderia. Deixou uma discografia enxuta, com apenas 7 álbuns, sendo um 78 rotações e outro ao lado de outros sambistas. Um novo disco estava programado ainda para esse ano, mas não chegou a ficar pronto. Há, no entanto, algumas gravações e projetos que podem dar luz a obras inéditas do cantor e compositor.

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– Russo, Mateus Aleluia, Jadsa Castro e Riachão entre os escolhidos no edital da Natura.

Um dos materiais inéditos que estão guardados pode render não apenas um, mas vários discos póstumos. Isso porque existem 77 registros na voz de Riachão nunca lançados que foram gravados em estúdio do período de registro do último álbum dele, “Mundão de Ouro”, de 2013. Quem confirma é a cantora Vânia Abreu, que fez a direção artística do disco ao lado de Cassio Calazans e Sergio Resende.

Segundo ela, são gravações inéditas, apenas com a voz do sambista. “A gente realmente tem um catálogo de obras inéditas com a voz dele gravada, afinadíssima. O desejo de que isso possa se perpetuar sempre existiu, com ele em vida. Agora isso torna-se vigoroso, mas não é um desejo ainda comercial. É o mesmo desejo que vinha antes, de dar importância a obra dele como autor e como cantador de samba. Era a coisa que ele mais amava era a Bahia, o bairro do Garcia e o samba”, explica a cantora em entrevista ao programa Multicultura da rádio Educadora FM.

Projeto em processo

Um outro registro que deve ser lançado é fruto do álbum que seria lançado esse ano. ‘Se Deus Quiser eu Vou Chegar aos 100’ era o nome do disco inédito que estava sendo preparado através de edital da Natura Musical, mas teve que ser paralisado com o falecimento do artista.

Ainda sem muitas definições, até pela perda recente e repentina do cantor e compositor, a produtora Joana Giron diz que o projeto vai acontecer em outro formato. “Estamos trabalhando para readaptar o projeto para ser um disco póstumo com músicas inéditas. A ideia é fazer uma homenagem com vários artistas da música brasileira cantando cada um uma das faixas que fariam parte do disco”, explica.

Riachão

Riachão entre novos parceiros e os produtores de novo disco inacabado, Paulinho Timor e Caê Rolfsen.

Segundo ela, Riachão só ia gravar as vozes guia em abril, mas o plano já havia sido suspenso por conta do coronavírus. Não havia, portanto, nesse projeto, as vozes do artista registradas. “Os produtores musicais do disco, Paulinho Timor e Caê Rolfsen, tinham umas 2 faixas gravadas no celular e vídeos do show com várias musicas do disco. Mas ainda não analisei esse material”.

Uma das certezas é que o nome do álbum com tom irreverente vai mudar, mas a essência de Riachão permanece: o samba. “As mudanças dependem também da aprovação do Fazcultura e dos cantores aceitarem o convite. Então não tem nada confirmado”, diz a produtora.

Em entrevista ao jornal  Correio*,  Paulinho Timor diz como Riachão estava empolgado com o projeto. “Ele estava felicíssimo com a gravação desse disco, estava super alegre”. Segundo ele, o trabalho terá uma canção sobre o bairro do Garcia, outra sobre Pelé e uma outra em homenagem à cantora Claudete Macêdo, que Riachão dizia ser “a melhor que ele tinha conhecido”.

Entre os participantes do disco, um que deve entrar é Martinho da Vila, que tem uma música inédita em homenagem a Riachão. Outro nome que pode entrar é o da cantora Juliana Ribeiro, apadrinhada pelo sambista. Uma música inédita dele, “Panela no Fogo”, vai estar no novo disco da cantora.

Além do disco inédito, o projeto inicialmente contemplava shows e um portal na internet. O site vai ser lançado reunindo o acervo da trajetória musical do artista, com letras de músicas, entrevistas, gravações, fotografias, prêmios, matérias de jornais. “No meu sonho também queria fazer um show em homenagem a ele, com participação de todos os cantores que gravarem no disco, mas pra isso preciso captar mais recursos. Seria um novo projeto. E tem também a limitação do vírus”, diz a produtora.

Quem também tem material inédito guardado é cantor e compositor Paquito, que produziu, ao lado de J. Velloso, o álbum ‘Humanenochum’, de 2000. “Tenho muitas coisas inéditas em fita cassete da época que gravamos o disco”, diz. Ele lembra que fez com Riachão o mesmo que havia feito com Batatinha, de quem produziu também com J. o disco ‘Diplomacia’. “A gente ligava o gravador e falava para ele cantar tudo que lembrasse”.

Discografia enxuta

Em entrevistas, Riachão dizia ter mais de 500 composições, embora tenha lançado apenas poucos álbuns individuais. O primeiro lançamento foi ‘Umbigada da Baleia’, um disco de 78 rotações (por volta da década de 1960). Seguido de ‘Sonho de Malandro’, um LP pelo Selo Desenbanco (banco onde ele trabalhava). No ano de 1975, ao lado de Batatinha e Panela, também representantes do samba baiano, lançou ‘Samba da Bahia’, em LP pelo Selo Fontana.

Alguns anos depois, em 1981, lançou o LP ‘Sonho de Malandro’ pela gravadora Tapecar. Só em 1997 apareceria novamente em um disco. Agora em ‘Diplomacia’, álbum de Batatinha, que reúne, além deles dois, nomes, como Ederaldo Gentil, Nélson Rufino, Walmir Lima e Edil Pacheco.  Os trabalhos seguintes foram ‘Humanenochum’, em CD pelo Selo Caravelas (2000), ‘Riachão’, em CD pelo Selo Caravelas (2001), ‘Mundão de Ouro’, em CD pelo Selo Comando S Discos (2013).

Apesar de ter gravado pouco como cantor, como compositor ganhou versões nas vozes de importantes nomes de nossa música, como Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Cássia Eller.

Ouça ‘Mundão de Ouro’, o último disco lançado por Riachão:

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