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O dia em que tivemos um Beatle na Bahia

São milhões em direitos autorais anualmente. Mais de 50 discos lançados em 60 anos de carreira. Uma fortuna estimada em mais de 500 milhões de libras. 100 milhões de álbuns vendidos. Vários sucessos emplacados em todo mundo. Aos 75 anos, Paul McCartney poderia largar tudo e curtir a vida e a riqueza numa ilha caribenha. Poderia apenas desfrutar da história que construiu ao lado dos Beatles, em suas outras bandas e na carreira solo. Mas ele prefere continuar na ativa, encarar longas viagens, fazer shows de quase três horas, aprender um pouco da língua dos países por onde passa, fazer questão de falar gírias locais, tocar vários instrumentos e ser simpático, elegante e magistral. Foi isso que Salvador assistiu no último dia 20 de outubro, em um show histórico na Arena Fonte Nova.

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O tesão e o amor pela música parecem mover aquele que é um dos homens vivos mais importantes da história da música, mesmo ele ganhando muito para tocar. O show na capital baiana, visto por cerca de 53 mil pessoas (o maior da turnê ‘One on One’ no Brasil), é praticamente o mesmo apresentado nas outras capitais, com o mesmo repertório, os mesmos truques de palco e até as mesmas gracinhas. Mas um show de Paul McCartney é sempre muito mais do que isso.

Pela primeira vez a cidade, tida como capital da música, via um show de um Beatle. E o amor pela música também era o que se sentia circulando na plateia. Diferentes gerações, família inteiras, amigos antigos, alguns se vendo depois de muito tempo, crianças, jovens, idosos. O clima era de total celebração e os sorrisos escancarados na cara das pessoas já denunciava o que estava por vir, mesmo horas antes do primeiro acorde. Eles viram como o velho Paul continua sendo responsável por apresentar um dos shows mais espetaculares que se pode fazer em cima de um palco. Como aquele senhor não tergiversa e se entrega por quase três horas, fazendo de tudo para tornar a experiência de quem está ali inesquecível. E consegue com louvor.

São esse amor e essa entrega que fazem com que um dos Beatles, em pleno 2017, apresente o show mais importante de sua vida. Assim como um jovem que acaba de formar uma banda, Paul pulsa energia e vibração e, sem clichê, faz de cada show o único, ou o último, da carreira. E esse, de fato, pode até ser o último de um Beatle no Brasil. Domina palco, plateia, instrumentos e repertório como muito poucos na história.

Repertório certeiro
A grandiosidade do espetáculo, a estrutura somada dava 60 toneladas, é pensada para agradar do fã mais ardoroso ao indivíduo que estava ali para ouvir um outro sucesso. O imenso palco tinha todo sentido, a parafernália com telão de led (dois deles com 19 metros de altura), luzes, fogos, palco elevadiço e tudo mais contribuíam para tornar aqueles momentos ainda mais especiais e inesquecíveis para um público que, em sua maioria, nunca tinha visto nada parecido.

Era, no entanto, aquele homem tocando e cantando canções feitas há 50, 40, 30, 20 ou 2 anos que fazia a diferença. Acompanhado de uma grande banda com Rusty Anderson (guitarrra), Abe Laboriel Jr. (bateria), Brian Ray (guitarra) e Paul Wickens (teclado, acordeon, gaita). Era aquele repertório, caprichosamente pensado, com 37 músicas que iam das origens com a banda pré-Beatles, até a última parceria com Rihanna e Kanye West, que tornava tudo ainda mais mágico.

Estavam lá sucessos da primeira fase de sua banda mais famosa, como “Love Me Do” e “A Hards Days Night” (que abriu o show), ambas tocadas nessa turnê pela primeira vez em um show de Paul, ou baladas imortais e certeiras, como “Yesterday”, “Let it Be” e “Hey Jude”, das mais celebradas no show, com direito a celulares acessos, coros emocionados e o já famoso cartaz com o “nanana” na última delas. Do período iê-iê-iê, além de “Love Me Do”, foram apresentadas outras certeiras: “All My Loving”, “Can’t Buy Me Love” e “And I Love Her”. Em “I’ve got a feeling” e “I Wanna Be Your Man” referências a outros ícones do rock mundial, Jimi Hendrix e Rolling Stones, respectivamente.

Paul McCartney em ação em Salvador. Fotos: Breno Galtier/Divulgação

Paul McCartney em ação em Salvador. Fotos: Breno Galtier/Divulgação

A melhor sequência começou com “Something”, numa linda homenagem a George Harrisson, inicialmente entoada apenas com um ukelelê, ganhou corpo com a entrada da banda e dos gritos apaixonados do público, seguida de uma versão caprichada e colorida de “A Day in the Life”. Logo depois, Paul colocou o público para dançar com “Obla Di Obla Da”, “Band on the Run” (uma das melhores dele fora dos Beatles) e “Back in USSR”, esta com o telão mostrando várias referências à antiga União Soviética, ainda nos tempos do comunismo. Aliás, em tempos de regressões intelectuais, surtiu muita oportuna a lembrança dos direitos humanos em “Blackbird”, que de imediato provocaram gritos de Fora Temer na plateia, e a presença da bandeira GLS ao lado da do Brasil e da Inglaterra, em outro momento. Do clássico álbum ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’, que comemora 50 anos em 2017, além de “A Day in The Life”, apenas “In The Benefit of Mr. Kite”, e a música que dá nome ao disco no bis, na conhecida versão reprise do álbum.

Se 24 das 37 músicas foram dos Beatles, ainda teve espaço para o início, ainda antes dos Fab Four, com “In spite of all the danger”, do Quarrymen, no momento mais intimista do show, com a banda mais próxima, à base de violão e acordeon. E também obras com suas outras bandas, como The Wings, nas canções “Junior’s farm” “Jet”, “Let me roll it”, “Nineteen hundred and eighty-five”, “Band on the run” e “Live and let die”, essa com os já habituais efeitos com fogos e explosões de artifício. Da carreira solo, “My Valentine”, “Maybe I’m amazed” e “FourFiveSeconds” (a tal parceira dele com Rihanna e Kanye West).

Um repertório intercalando hits para todos, músicas não tão conhecidas para não-fãs, e ótimas lembranças, que ia ganhando corpo até uma sequência de tirar o fôlego no final. Um bis memorável, abrindo com “Yesterday”, “Sgt. Pepper’s”, seguindo com a pesada “Helter Skelter”, “Birthday”, com uma fã “escolhida” na plateia subindo ao palco, e “Golden Slumbers” para fechar. O público parecia estar entre hipnotizado, estupefato e cansado. Se o mundo anda tão atribulado, confuso e descrente, durante aquelas horas parecia ser só amor, paz e música.

Repertório do show em Salvador – 20/10/2017

A hard day’s night (Beatles)
Junior’s farm (Wings)
Can’t buy me Love (Beatles)
Jet (Wings)
All My Loving (Beatles)
Let me roll it (Wings)
I’ve got a feeling (Beatles)
My Valentine (Paul McCartney)
Nineteen hundred and eighty-five (Wings)
Maybe I’m amazed (Paul McCartney)
We can work it out (Beatles)
In spite of all the danger (Quarrymen)
You won’t see me (Beatles)
Love me do (Beatles)
And I love her (Beatles)
Blackbird (Beatles)
Here today (Paul McCartney)
Queenie eye (Paul McCartney)
New (Paul McCartney)
Lady Madonna (Beatles)
FourFiveSeconds (Paul McCartney, Rihanna, Kanye West)
Eleanor Rigby (Beatles)
I wanna be your man (Beatles)
Being for the benefit of Mr. Kite! (Beatles)
Something (Beatles)
A day in the life (Beatles)
Ob-la-di ob-la-da (Beatles)
Band on the run (Wings)
Back in the U.S.S.R (Beatles)
Let it be (Beatles)
Live and let die (Wings)
Hey Jude (Beatles)
Bis
Yesterday (Beatles)
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise) (Beatles)
Helter Skelter (Beatles)
Birthday (Beatles)
Golden slumbers (Beatles)

Veja alguns momentos do show:

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2 Comments

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