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Nova música baiana faz bonito em festival em São Paulo

Fotos de Tiago Lima e Luciano Matos

Há 45 anos, um grupo de baianos transformava a música brasileira apresentando a Tropicália em festivais em São Paulo. Há 20 anos, Daniela Mercury arrombava a porta do preconceito e levava à capital paulista o ritmo que já estourava na Bahia e abria o mercado para a Axé Music, em um show histórico no MAM. Em um momento bem diferente, sem uma indústria de discos forte, com a enorme dificuldade de artistas se tornarem populares e com o clichê repetitivo e preguiçoso de que a Bahia é (apenas) a terra do Axé, uma nova música baiana foi apresentada nos últimos dias 21 e 22 de setembro, no Festival Bahia de Som Salvador, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, para um público de cerca de 1200 pessoas, ou quase 80% da capacidade nos dois dias.

Quatro nomes dessa nova produção musical baiana, Orkestra Rumpilezz, Baiana System, Manuela Rodrigues e Peu Meurray, fizeram a festa recebendo diversos convidados em duas noites que, se ainda não dá pra ter ideia da dimensão e importância, já podem ser consideradas históricas por apresentar no maior mercado do país a nova cara do que anda sendo produzido na Bahia. E se não há um movimento pensado por trás e muito menos a tentativa de unir tudo num ritmo único, são artistas que se mostram sintonizados com os tempos atuais, contemporâneos, flertando com o que há de moderno na música mundial, ao mesmo tempo que exaltam os ritmos e sons da Bahia. Uma música que aponta pra frente, fugindo em boa parte dos clichês da baianidade e mostrando a diversidade da música baiana.

Encontro de gerações – Organizado com o intuito de mostrar essa diversidade, o Bahia de Som Salvador abriu a primeira noite com a cantora Manuela Rodrigues. Meio tateando num ambiente desconhecido, ela soube aos poucos revelar suas melhores caracteristicas: a música contemporânea, a privilegiada voz, a simpatia e um tipo de humor não tão comum em cantoras no Brasil. Entre sambas, ironia e fortes ecos de vanguarda paulista, a cantora desfilou as músicas presentes em seus dois discos lançados, boa parte de autoria própria, com parcerias ou não, mas também gravações de novos compositores de sua geração, como “Uma Outra Qualquer por Ai”, parceria de Clima com Romulo Fróes, que assistia ao show da plateia. Além de músicas um pouco mais antigas de artistas mais conhecidos, como “Tô”, de Tom Zé, e “Berimbau”, de Germano Meneghel e Pierry Onassis, numa versão climática e cheia de dramaticidade do sucesso do Olodum.

Para quem estava receoso de que Manuela perdesse a oportunidade de trazer convidados mais representativos para o festival, por apostar no projeto Três na Folila, com as cantoras Sandra Simões e Claudia Cunha, que costuma se ater a versões de clássicos da música brasileira e de Carnavais antigos, o resultado foi muito bom. As duas cantoras fizeram bem seu papel, investindo em composições de seus discos e mantendo o nível do show. No final, voltaram para as três cantarem juntas uma música inédita de Manuela e a clássica “Baianada”, de Gordurinha, que tirava um sarro da postura paulista em relação aos baianos: “O Brasil foi descoberto na Bahia/ E o resto é interior/ É por isso que nem ligo/ E é até cartaz pra mim/ Quando a turma de São Paulo ou do Rio de Janeiro/ Começa a cantar assim:/ “Um baiano, um côco/ Dois baianos, dois côcos/ Tres baianos, uma cocada/ Quatro baianos, uma baianada”.

A Orkestra Rumiplezz, sob comando do maestro Letieres Leite, finalizou a primeira noite com um show arrebatador, algo como uma presença sacra dos orixás através de música. Com um trabalho um pouco mais conhecido em São Paulo, o grupo desfilou sua mistura de jazz e ritmos afro-baianos, com 14 músicos formando o naipe de sopros, cinco percussionistas e o maestro à frente. O grupo apresentou músicas de seu primeiro e único disco, quase sempre com breve apresentações do que significavam, como “Floresta Azul” e “Aláfia” (veja vídeo), além de outras ainda não registradas em disco, caso de “Das Arabias” e “Feira de 7 Portas”.

Os convidados da Rumpilezz só ajudaram a abrilhantar e tornar o show ainda mais especial. Lazzo Matumbi, com uma voz do tamanho da importância da cultura afro no Brasil, entrou como uma entidade para cantar em homenagem ao bloco Ilê AIyê, onde foi revelado, e, em seguida, com um de seus maiores sucessos, “Alegria da Cidade”. Foram as senhas para o público deixar a timidez de lado e ir dançar em frente ao palco.

Logo depois, o outro convidado e mais um encontro de duas gerações da música afro-baiana dividindo o palco. Agora era a vez do grupo Opanijé, que traz a formação clássica do rap com dois MC’s e um DJ, mas juntando bases gravadas de ritmos afro com discurso social e racial. No festival, a parceira com a Rumpilezz casou muito bem. A base percussiva, com os sopros e os efeitos do DJ Chiba D, davam a sustentação para que Lázaro Erê e Rone Dum-Dum soltassem o verbo, exaltando a cultura negra e destruindo os preconceitos. Rap moderno, dançante, sem a sisudez tipica e com a cara da Bahia, que foi muito recebido pelo público paulista. A Rumpilezz ainda guardou para o final seu samba-reggae-jazz instrumental irresistível “Taboão” e a volta de Lazzo para cantar outro clássico do Ilê Aiyê, “Depois que o Ilê Passar”, com Letieres improvisando com a orquestra, enquanto o auditório do Ibirapuera se transformava em uma rua do Pelourinho.

Segunda noite – O cantor e percussionista Peu Meurray foi talvez a única atração a destoar do Festival Bahia de Som Salvador. Se a proposta era apresentar o que há de mais novo e contemporâneo na música baiana, o cantor mostrou uma música que segue uma lógica já ultrapassada de baianidade afro-pop-axé. Quase sempre com músicas cheias de clichês, sem muitas novidades, baseada numa sonoridade já cansada e letras com temáticas amorosas óbvias, , Peu Meurray chamou mais atenção pela aposta num exotismo baiano também já batido. Figurino modernete, uso de pneus como percussão e um modo engraçadinho no palco, reforçado por uma banda sem muita expressão, com exceção da simpática percussionista. Mariela Santiago deu uma elevada no show, com sua voz marcante. Já o rapper Daganja levou as rimas e mais interação com o público, mas na maior parte do tempo mais assistiu do que teve espaço para mostrar a que veio.

A principal atração da noite era mesmo o grupo Baiana System. Misturando temperos diversos encontrados nas ruas de Salvador e de outras partes do mundo, dub, afoxé, arrocha, pagode, eletrônica, reggae, frevo elétrico, reprocessados que pareciam até ter sido criados juntos. Tudo a base da velha guitarrinha baiana de Roberto Barreto, mentor do grupo, acompanhado de baixo, percussão, programações eletrônicas e do front man Russo Passapusso, um misto de cantor, MC e animador, que sabe como poucos colocar o público no bolso. A sequência de composições do primeiro disco do grupo, como “Oxe, Como era Doce”, “Jah Jah Revolta” e a nova “A Terapia”, fez baianos residentes em São Paulo e paulistas cairem na dança como se fosse Carnaval. Faltou um som mais potente e um ambiente propício pra festa que o grupo criou.

O clima mudou um pouco com a entrada dos convidados. Lucas Santtana cantou duas de suas músicas, uma com a cara da Bahia, “Cira, Regina e Nana”, e outra em homenagem a São Paulo, “Se Pá Ska S.P.”. Quem fez melhor, porém, foi outro convidado, a cantora Marcia Castro, que apresentou a música que dá nome ao seu novo disco, “De Pés no Chão”, e uma versão bem diferente e mais viajante de “Selva Branca”, clássico do proto-axé de Carlinhos Brown, gravado pela banda Chiclete com banana nos anos 80 (veja vídeo). Ainda teve tempo de um final histórico, com Russo convidando Bnegão e Lazzo para uma participação para cantar “Systema Fobica (Ubaranamaralina)”, do Baiana System, e “Canto das Três Raças”, hino não oficial do povo brasileiro famosa na voz de Clara Nunes. Final digno comprovando a diversidade e a mistura de ritmos, ideias e influencias, que sempre marcaram a música baiana e continuam marcando.

Veja o vídeo com o Baiana System recebendo Bnegão e Lazzo Matumbi. Outros vídeos na el Cabong TV

 

 

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5 Comments

  1. Fabio Reply

    Vc quer mais representatividade do que Cláudia Cunha e Sandra Simões? Elas, junto a Manuela, são as 3 grande cantoras e compositoras da Bahia na atualidade!
    Poxa, dizer que Peu destoou, é no mínimo deselegante…

  2. Eduardo Reply

    Pena que Daganja não pode mostrar a que veio, pois se pudesse ia ser fumaça sonora pra tudo que é lado. Teria que chamar numa próxima oportunidade tanto ele como outros rappers locais que sempre representam muito.

  3. Pingback: Invasão de música baiana no Rio, na Europa e nos EUA » Para quem gosta de música sem preconceitos, numa visão a partir da Bahia

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