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Música, encontros e misturas foram os trunfos do Combina MPB

A proposta do festival Combina MPB, que aconteceu de 1 a 3 de dezembro em Salvador, era misturar de tudo. Gerações, estilos diferentes e até mercados. Tinha tudo para dar muito certo ou ser um tremendo fiasco. Em meio a encontros inusitados, momentos marcantes, experiências interessantes, combinações sem química e apostas frustadas, o festival saiu com um saldo positivo. Um bom público, que chegou a 40 mil pessoas no último dia, pôde ver artistas desconhecidos, famosos e históricos fazer um bom apanhado da música brasileira. Sem preconceitos e com momentos de posicionamento políticos, juntando rock, samba, mpb, axé, rap, carimbó, pop, pagode, 31 nomes de nossa música se encontraram nos dois palcos montados no Wet’n Wild e mostraram, quase sempre, que o diálogo é possível. Entre os destaques os encontros nos shows do Paralamas do Sucesso, Felipe Cordeiro e BaianaSystem.

As três principais bandas do rock nacional dos anos 80 no mesmo palco: Paralamas recebe Dado Villa Lobos (Legião Urbana) e Arnaldo Antunes e Paulo Miklos (Titãs) - Foto Ulisses Dumas / Argo Imagens

As três principais bandas do rock nacional dos anos 80 no mesmo palco: Paralamas recebe Dado Villa Lobos (Legião Urbana) e Arnaldo Antunes e Paulo Miklos (Titãs) –
Foto Ulisses Dumas / Argo Imagens

Ainda com um público tímido, o primeiro dia teve início com o carioca Pretinho da Serrinha, mais conhecido por emplacar sucessos na voz de Seu Jorge, fazendo sua estreia na Bahia. Samba carioca da gema, temperado com referências à Bahia, como em “Marinheiro Só”, que não estava prevista no repertório e, segundo confissão do próprio, entrou na hora por pura emoção do momento. As cantoras Marienne de Castro, Maria Rita e Roberta Sá entraram e deram um brilho ainda maior à apresentação. A combinação não tinha como dar errado. Mas uma das mais inusitadas do evento veio a seguir, com o cantor Alexandre Pires recebendo os ex-titãs Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. Não funcionou. A nova direção na carreira do mineiro, focada num repertório MPB, é frágil e não empolgou. O encontro ainda menos, sem nenhuma liga entre eles e com o anfitrião não tendo nem o cuidado de lembrar a letra de “Comida”, dos Titãs.

Os dois convidados ainda voltariam ao palco, em outro show, num ambiente mais confortável e promovendo um dos momentos mais marcantes do festival. Poucas vezes tivemos chances de ver Paralamas, Legião Urbana e Titãs juntos. Não eram exatamente as bandas completas, mas ver Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, com Dado Villa-Lobos, Arnaldo e Paulo Miklos não deixava de ser histórico. Fora dos momentos dos encontros, o Paralamas apostou em um repertório que cobriu as décadas de carreira, mesclando músicas mais novas, sucessos não tão batidos, e clássicos imortalizados, passando por “O Calibre”, “O Beco”, “Uns Dias”, “Meu Erro”, “Lanterna dos Afogados”, “Óculos”, “Ska” e “Alagados”. Dado, o convidado oficial, levantou o público cantando músicas de sua banda de origem, como “Tempo Perdido”, “Será” e “Que País é Esse”, que fechou a apresentação e serviu de deixa para os já tradicionais gritos de “Fora Temer”, recebidos com uma tímida vibração pelos artistas.

O público já rondava a casa dos 20 mil, segundo a PM, quando o astral mudou totalmente para a vez de Milton Nascimento e Tiago Iorc. Sem banda, os dois sozinhos, lado a lado, soltos e em sintonia, apenas com o violão de Iorc e uma plateia jovem que parecia conhecer muito mais a obra do cantor contemporâneo. Foi o primeiro grande encontro geracional no festival. Para muitos parecia uma combinação estranha à primeira vista, mas que se mostrou consistente e entrosada. Não era inédito, os dois já haviam lançado uma música juntos e iniciaram uma turnê por capitais brasileiras, sendo Salvador a segunda a receber o show. Alternando composições de cada um, o espetáculo uniu dois mundos no fundo não tão distantes. Iorc provocava gritos com seus sucessos e reverenciava o parceiro, enquanto Milton valorizava ainda mais as músicas do companheiro largando a bela voz. Um contribuindo para tornar as duas obras e o encontro mais memorável, com um repertório que passava por “Coisa Linda” e “Dia Especial”, mas fazendo todos se renderam mesmo em clássicos como “Travessia”, “Canção da América” e “Clube da Esquina 2”.

Milton Nascimento e Tiago Iorc - Foto: Ulisses-Dumas / Argo Imagens

Milton Nascimento e Tiago Iorc – Foto: Ulisses-Dumas / Argo Imagens

Mais uma vez começando com pontualidade, a segunda noite renderia encontros curiosos e o único problema técnico do festival. A ideia de unir artistas no mesmo palco teve resultados diversos não só de química entre eles, mas no próprio formato. Em alguns a interação foi maior, com artistas aliados, em outros quase não houve, como se fosse um show dentro do outro. Luiz Caldas e Larissa Luz ficaram mais para a segunda opção, com quase nenhum diálogo entre eles, apenas uma música para o “pai da axé-music” receber a “novata”.

Larissa mostrou mais uma vez a força de sua música pop empoderada e soube aproveitar muito bem a oportunidade, com “Território Conquistado”, “Bonecas Pretas” e um tributo aos blocos afro. Fincou a bandeira da novidade e trouxe seu discurso político para um público muito maior do que está acostumada: “Vamos ocupar tudo! Representatividade importa, sim senhor! Mulher preta no poder”. Caldas mesclou sucessos antigos, como “Nara”, “Ajaiô”, “Haja Amor”, “Tieta”, e versões de Zé Ramalho, Alceu Valença, Kiko Zambianchi, além da execução precisa na guitarra  de “Bolero”, de Maurice Ravel, e “Time”, do Pink Floyd, como se mandasse um recado que é muito mais do que um cantor de Axé. Ele enfrentou ainda uma queda de energia no palco, que rendeu uma paralisação de cerca de dez minutos, que fez o público cantar “Fricote” à capela e puxar o primeiro “Fora Temer” da noite.

Um dos encontros especiais do festiva, com Felipe Cordeiro recebendo Gaby Amarantos, ÀttooxxÁ e Marcio Vitor Foto: Ulisses Dumas /Argo Imagens

Um dos encontros especiais do festival, com Felipe Cordeiro recebendo Gaby Amarantos, ÀttooxxÁ e Marcio Vitor
Foto: Ulisses Dumas /Argo Imagens

Na sequência um dos melhores, mais divertidos, ousados e políticos shows do festival. O paraense Felipe Cordeiro talvez fosse o nome mais desconhecido a comandar um palco no Combina MPB. Empunhando sua guitarra e acompanhado de uma banda afiada, não se fez de rogado, estava solto e jogou para as massas seu misto de carimbó, guitarrada, brega e lambada, que alcançou bom resultado. Entre músicas novas e outras mais conhecidas, como “Tarja Preta” e “Problema Seu”, soube dosar o bom humor com discursos certeiros. “Estão dizendo pra gente que o mundo está pior. Mas não está não! Nunca se questionou tanto as coisas como hoje. Pode não estar uma maravilha, mas estamos aqui, resistindo por nossa liberdade. E MPB combina com transformação”.

No festival, chamou atenção que enquanto os medalhões no máximo se manifestavam timidamente, alguns dos artistas mais novos, especialmente os do universo mais “independente”, aproveitavam a oportunidade (e a transmissão ao vivo de canais como Bis e Multishow) para se posicionar sem temer consequências. Cordeiro foi dos mais felizes. Exaltou a diversidade, tanto musical (“Vamos celebrar a cultura do nosso país, nossa mestiçagem, nossa antropofagia!”), quanto de gênero, antes de começar uma música que tratava do amor, sem distinções (“Estão querendo dizer que nosso país é careta, mas a gente é livre. Essa mistura que estamos fazendo no Combina MPB é nossa liberdade. Viva a liberdade, viva o Brasil!”). O público ovacionou.

Só que ainda tinha mais, os convidados, que só reforçaram mais a proposta. Primeiro foi Gaby Amarantos, que levou o público ao delírio com seu visual tropical sensual e a acertada sequência technobrega: “Xirley”, “Ex Mai Love” e “Beba Doida”. Logo depois, sobem Márcio Victor e o grupo ÀtøøxxÁ, para juntos mandarem o já hit ‘Popa da Bunda’ e ‘Firme e Forte’, do vocalista do Psirico. Podia até parecer estranho, mas poucas vezes se viu um Brasil tão diverso casando tão bem. Pagode com lambada, quebradeira com carimbó, Pará com Bahia. Como se tivesse sido criados para estar juntos. Houve até promessa de levar o encontro para cima de um trio elétrico no Carnaval.

O tom diminuiu em seguida, com um show correto e sem riscos de Nando Reis, que desfilou sua costumeira sequência de hits, “All Star”, “Relicário”, “O Segundo Sol” e “Por Onde Andei”, com a plateia cantando todas em coro. Até o convidado escolhido demonstrava que ali não se sairia da zona de conforto. Ele recebeu os filhos, Sebastião e Theodoro, do grupo 2 Reis, que tentam seguir os passos do pai, com algum talento, mas sem tanto brilho.

Fechando a noite, um encontro mais inusitado, mas não menos enfadonho. Com a noite já reunindo umas 25 mil pessoas, Carlinhos Brown acertou em vários momentos, como em “A Namorada” (com direito a discurso contra a homofobia: “Você não precisa ser gay para ser contra a homofobia, basta ser gente”), “Seu Zé” e “Uma Brasileira”, mas suas músicas de apelo pop romântico não mantiveram o mesmo nível. Pior quando recebeu a dupla do Tocantins AnaVitória. Ovacionadas pelo fãs adolescentes, elas cantaram “Fica” e “Trevo”. Mas se Milton e Iorc conseguiram liga unindo gerações diferentes, com Brown e as garotas não rolou da mesma forma, pareciam mundos muito distantes, dois shows diferentes num mesmo palco. No bis, elas voltaram para tentar cantar juntos a tribalista “Já sei Namorar”, que elas mal sabiam balbuciar. Faltou química.

O pernambucano Johnny Hooker recebeu As Bahias e Daniela Mercury - Foto: Ulisses Dumas / Argo Imagens

O pernambucano Johnny Hooker recebeu As Bahias e Daniela Mercury – Foto: Ulisses Dumas / Argo Imagens

Desde seu anúncio a terceira noite do festival já prometia ser a de maior público e, mesmo antes de começar os shows, já havia um bom número de pessoas no Wet’n Wild. Ótimo para a banda Sinara, que conseguiu boa audiência para seu reggae pop. Formado por netos de Gilberto Gil, o grupo apostou em sucessos de Edson Gomes, Gerônimo e Lazzo e recebeu convidados especiais. Além de Saulo e Jau, já programados, o multiinstrumentista sergipano Mestrinho também marcou presença.

Não era surpresa nenhuma que o BaianaSystem faria um show incrível no Combina MPB. Mas os seis meses sem apresentação na cidade, depois de circular pelo Brasil quase inteiro, deu um gás ainda maior ao público e à banda, que parecem mesmo ser a mesma coisa. Pesado, groovado, potente, certeiro, político, artístico, o grupo conseguiu fazer tudo isso conversar de uma forma natural que não mais surpreende, mas é sempre marcante. No último dia do festival foi assim e não deu para ninguém ficar imune. Aquela expressão “alguém anotou a placa desse caminhão” reverbera até agora em quem esteve por lá. A participações de Emicida e Bnegão só ajudaram a botar ainda mais fogo na mistura. O primeiro mais leve, o segundo mais enfático, atirando com precisão em “A Verdadeira Dança do Patinho”, que acerta em vários alvos e, numa atualização da letra, incluiu o deputado Jair Bolsonaro na mira.

No show do BaianaSystem, Emicida canta ao lado de Russo Foto: Baianasystem/ Reprodução

No show do BaianaSystem, Emicida canta ao lado de Russo
Foto: Baianasystem/ Reprodução

Seria difícil para qualquer um se apresentar na sequência do BaianaSystem. O encontro de Johnny Hooker, Daniela Mercury e As Bahias e a Cozinha Mineira foi ainda mais frustrante, pois, apesar da boa proposta, não funcionou tão bem. Estavam lá o tom transgressor e o discurso pela diversidade de gênero, nomes da nova geração se encontrando com um ícone da música brasileira. Mas não deu liga e o entrosamento não aconteceu como se esperava, apesar de todo o esforço de Hooker, que recebeu a cantora baiana com toda referência possível. Juntos cantaram “Você Não Entende Nada”, de Caetano, e “Coração de Manteiga de Garrafa”, do disco dele. Com as cantoras Assucena Assucena e Raquel Virgínia, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, a conexão funcionou melhor, mas no geral não teve a força que o porte do festival pedia. Uma pena.

Anfitrião de certa forma do próprio festival, já que a produção era da empresa de sua esposa Flora, Gilberto Gil fez uma apresentação com vários de seus sucessos. Teve de “Tempo Rei” a “Toda Menina Baiana”, passando por um momento reggae (“A Novidade”, “Vamos Fugir”, “Is This Love” e “Não Chore mais”). Vale destacar a lavra dos anos 80 e a sequência politizada, que como o próprio disse, pode ser feita também com sutileza: “Às vezes, a canção, a música, a literatura falam mais que qualquer slogan político”. Engatou “Pessoa Nefasta” (para “exorcizar o baixo astral”, disse), “Realce”, “Punk da Periferia” (com direito a um dedo médio hasteado no verso “Aqui pra você!”) e “Nos Barracos da Cidade” (“Gente estúpida / Gente hipócrita”). Acabou gerando novos gritos de “Fora Temer”, que o cantor prontamente respondeu com um “Não vai demorar, não. Em outubro acaba”, lembrando as Eleições de 2018.

Talvez houvesse um incômodo do próprio Gil com os fãs histéricos que gritavam por Anittta, que só sossegaram quando a cantora entrou para cantar, fora de sintonia e errando versos, primeiro em “Vamos Fugir”, depois em “Qui nem Jiló”, “Esperando na Janela” e “Palco”. De seu repertório apenas “Bang”, quando ela provou que seu sucesso é honesto, mas funciona dentro de uma medida limitada, já que não é uma grande cantora e nem tem um brilho particular, apesar da simpatia. Parte do público de 40 mil pessoas, recorde do festival, foram embora com a saída da cantora, perdendo o final com “Toda menina Baiana”.

Pontual, com uma estrutura adequada, com som, iluminação e atendimento ao público funcionando quase 100%, o Combina MPB fez uma estreia respeitável. Alguns encontros podem ser ainda mais bem planejados, mas a maioria funcionou bem. De qualquer forma, um evento gigante em Salvador que não precisou apelar para sertanejo ou ritmos da moda, e que deu pouco destaque para a axé music e até para o pagode merece atenção. O fato é que é muito bom ver a música brasileira em sua essência, promovendo encontros e diálogos de forma tão honesta. Que se repita em 2018.

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