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Entrevista Jorge Mautner: “A música brasileira é poesia e profecia”

Filósofo, cantor, compositor de canção e profeta do Kaos. Pensador do futuro e do passado, na urgência do presente, Jorge Mautner, 75, mantém profunda esperança no Brasil. Uma fé baseada não apenas no sentimento, mas também em dados objetivos. Tudo entrelaçado, afinal, “os neurônios são emoção” e “o mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil”. Sendo assim, ele defende que a atual crise  é artificial. Problema maior é a desigualdade, que poderia ser atenuada, por exemplo, com o aumento do “vergonhoso salário mínimo”. Considerado por Caetano Veloso e Gilberto Gil  pré-tropicalista, Mautner é membro da Academia Brasileira de Filosofia, possui extensa bibliografia – recebeu o prêmio Jabuti aos 22 anos, com O Deus da Chuva e da Morte – e tem obras marcantes na música brasileira, como Vampiro e  Maracatu Atômico. Ainda em 2016, pretende lançar o livro   Não há Abismo em que o Brasil Caiba – O Domínio do Fato, que aborda a imensa contribuição do país-continente, tema ao qual dedicou parte significativa dos seus escritos. Em junho, veio a Salvador fazer show de encerramento do projeto Bahias Intemporais, e, sobretudo, divulgar suas ideias, pois o “nazismo universal está sempre aí”. Nesta entrevista, ele fala sobre política, música, drogas, opressão e, claro, revolução.

Por Daniel Oliveira*

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Filho de europeus, o senhor frequentou terreiro de candomblé na primeira infância, as rádios em São Paulo, onde tocava samba-canção, e construiu  forte amizade com Caetano  Veloso e  Gilberto Gil. Como enxerga essas vivências  na  sua obra?
É  total. As artes se entrelaçam o tempo todo, até com a ciência. E a música brasileira é poesia, profecia e filosofia. Imagina, o que eu posso te dizer? José Bonifácio, em 1823, nos definiu: “Diferente dos outros povos e culturas, nós somos o amálgama”. Isso é Guimarães Rosa, Mário de Andrade e os tambores do candomblé. Tem ainda os repentistas, que sabem de tudo e são quânticos. Esse amálgama ninguém tem. O mundo  fica estarrecido. (Risos).

A bossa nova e, sobretudo, João Gilberto, são reafirmados como influências por parte dos artistas da sua geração. Também são para o senhor?
Gostava muito de bossa nova, de Johnny Alf. Conheci ele em 1958, situo isso no Kaos com K. Mas me aproximo mais dos tambores do candomblé, do samba mesmo: Noel Rosa, Assis Valente. Eu fiquei no colo de Aracy de Almeida. Eles faziam shows em festivais e íamos todos no ônibus, porque meu padrasto fazia bico com alguns desses  artistas. E frequentei a escola de samba Vai Vai lá no bairro do Bixiga.

Em O Deus da Chuva e da Morte, inclusive, o senhor  compara  Aracy de Almeida a Beethoven e afirma que a brasileira é ainda melhor. Como surgiu essa relação?
Meu padrasto era o máximo. Era a primeira viola da Orquestra Sinfônica de São Paulo e trabalhava fazendo bico no rádio. Ele me ensinou violino. Mas um dia eu não tinha ido para o ensaio. E quando ele chegou em casa, disse: “Hoje demorou muito porque aquela burra não pegava o tom”. Eu perguntei: “Quem é a burra?”. Ele disse: “Aracy de Almeida”. Aí eu coloquei no livro: “Aracy de Almeida é igual a Beethoven, embora ligeiramente superior”.

“Nunca houve pessoa mais ingrata com a carreira. Eu gastava muito tempo nessa militância e escrevia. Fui injusto com a indústria.”

O senhor tem obras de destaque  na música brasileira, mas nunca esteve inserido no show business. Isso foi escolha ou falta de oportunidade?
Nunca houve pessoa mais ingrata com a carreira. Eu gastava muito tempo nessa militância e escrevia. Fui injusto com a indústria. Gil e Caetano me recomendaram e André Midani logo gravou. Mas eu não tinha a preocupação de mercado. Ignorava e mandava os recados ideológicos, poéticos e fundamentais. E sempre fiz muito show, porque está ligado à minha atividade de profeta. Eu e Nelson Jacobina fomos para lugares que ninguém ia. O erro foi meu, de não ter me empenhado.

O seu último disco de inéditas é Revirão, de 2007. Pretende lançar um novo trabalho ainda este ano?
Sim. Quem sabe para o final do ano. Ou então vou começar a lançar músicas pela internet. Tenho material novo, letras novas que estão no livro Kaos Total, lançado recentemente.

O livro Não há Abismo em que o Brasil Caiba – Domínio do Fato já tem data definida para ser publicado?
Também estamos querendo lançar no final de 2016  ou no começo do ano que vem pela Companhia das Letras. O André Midani quer urgência na publicação desse livro. É o primeiro de dez volumes. Entre outras coisas, conto particularidades  do  período em que fui secretário  literário de Robert Lowell nos Estados Unidos. Ele só queria ler Câmara Cascudo, Gilberto Freyre e entender os mistérios do Brasil.

Nos anos 1970 o senhor respondeu a uma crítica de Belchior a Caetano e Gil, de um suposto hedonismo baiano, e disse que ele tinha um hedonismo de machão. Conversou com Belchior depois disso?
Já resolvemos e fizemos uma música. Não temos nenhum problema. Mas foi uma coisa a ver com a crítica do Pasquim aos baianos, que chamava-os de baiunos. O Brasil é um continente, e naquela época cada estado já tinha uma competição amorosa. Até porque Gil gravou Jackson do Pandeiro. Fagner gravou música minha. Isso não existe em nenhum outro lugar. É o amálgama. Estou cansado de falar isso para os estrangeiros. E agora irrompe como necessidade mundial, de sobrevivência.

jards e mautner

Dois dos então considerados “malditos” da MPB: Jards Macalé e Jorge Mautner.

Há décadas o senhor fala de um autoritarismo, o “nazismo universal”, ora camuflado, ora explícito, mas sempre presente no mundo. Quais são as opressões no Brasil que mais incomodam?
As crianças com deficiência que estão abandonadas e o machismo. Hoje  a legislação de direitos humanos é mais aberta. Nunca se pode falar tão abertamente sobre todas essas questões. Eu e João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia, escrevemos um artigo contra os ataques aos candomblés e o bispo Crivella assinou. Não é incrível? Martin Heidegger, em 1953, dizia que através da cibernética viveremos num planeta onde todos serão controlados e controladores. É a simultaneidade.

Mas na prática…
Na prática a teoria é outra. Como hoje dez anos são dez segundos, as coisas mudam o tempo inteiro.

O senhor viveu em Salvador e  foi chefe de gabinete de Gil na Câmara Municipal. O que mais marcou essa atuação política?
Eu fiquei um ano e meio em Salvador, morei no Pelourinho. E há cerca de dez anos fui considerado cidadão soteropolitano. Mas, nessa época com Gil, ocorreu a primeira manifestação contra os ataques aos terreiros de candomblé. Montamos um palanque em frente à prefeitura. Era interessante porque tinha o povo reunido, metade evangélicos, e a outra parte mães de santo, que estavam ali para defender o fim da violência e da intolerância. Era a democratização e foi logo depois dos 48 shows que fiz com Gil, O Poeta e o Esfomeado. Gil iria tentar ser prefeito, mas ocorreu uma manobra e ele se candidatou a vereador.

Como é a sua ligação com o candomblé atualmente?
É o tempo todo. Eu sou um fenomenólogo, culturalista, historicista, materialista e ao mesmo tempo acredito em Jesus de Nazaré e nos tambores do candomblé. É simultaneidade. Eu conheci o mestre Agenor, através de Gil e  Flora. E, desde cedo,  fui ao terreiro, mas hoje  não tenho uma frequência. Os tambores tocam desde criança. É a essência.

É possível unir ciência, filosofia e religião  sem cair no relativismo?
Você pegou relativismo e  Albert Einstein foi o primeiro. Ele não queria que o cosmos fosse um jogo de dados e tivesse um sentido. Mas o sentido, na ciência atual, não tem determinismo. Cada átomo, cada estrela, tem opção própria a cada segundo. É muito mais complicado e espantoso do que se pensava. Então não vejo muita diferença entre isso tudo. Sempre foram ligados, mas tiveram separações  com as culturas.

“O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil.”

Qual a sua opinião sobre a gestão de Barack Obama na relação com o Brasil e o que espera das próximas eleições norte-americanas?
O mais brasileiro de todos os presidentes dos Estados Unidos foi Barack Obama. E tem uma coisa interessante: a mãe dele é uma filósofa, que queria saber como era a Grécia. Ela entrou no filme Orfeu Negro e por isso Obama nasceu, ou seja, ele deve a vida ao nosso eflúvio da amálgama. Isso está na biografia dele. Nas eleições, Hillary é melhor. Espero que o Trump não ganhe, e acho que isso vai acontecer, pois o Sanders vai apoiar a Hillary. Mas sempre há o perigo. Trump é entertainment. E ele é definido como um fascista não belicoso. Veja só, político pode falar na primeira, segunda e na terceira dimensão. Agora, a quarta dimensão é a arte. Hitler era isso, terrível. Ele atinge em outro nível, vai pela emoção individual.

Na crise atual, o que traz esperança?
A exuberância da democracia. As demonstrações estão em todos os lugares. A própria presidente Dilma Rousseff sancionou a Lava Jato para limpar tudo. São simultaneidades. E a crise é artificial. Se tivesse estrada de ferro, reduziria 70% do preço. Se navegássemos todos os rios, seria 85%. Temos 95% do nióbio  em Minas Gerais  e os maiores aquíferos. O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil. Entre 1965 e 1967, eu estava nas Nações Unidas. E os cientistas questionavam: “Como assim essa seca se vocês têm os maiores aquíferos do planeta?”. É tão inconcebível que parece mentira. E é  vergonhoso o nosso salário mínimo. Mas isso muda, porque agora tem todo tipo de comunicação, são dez anos em dez segundos. Esse é o maior salto.

jorgeMautner2O senhor ainda acredita na revolução do ensino superior e da instituição pública brasileira?
É o próximo passo, porque o povo já é mais instruído que os intelectuais. E tem que ser na instituição pública. Darcy Ribeiro já falava isso. É uma campanha, pois estamos em 2016. Robespierre dizia duas coisas sobre a revolução: “A revolução são aulas universais”. Então ele ensinava um coro de duas mil pessoas. E depois: “A junta de instrução pública está acima até mesmo da junta de salvação pública”. Todos os outros historiadores partiram para a abstração e esqueceram o papel individual de cada personagem, ficou na lata de lixo.

Entre os atuais políticos, quem poderia potencializar essa força do Brasil?
Tem Marina Silva, Jandira Feghali. É a próxima geração que vai decidir isso, porque as novas demandas são fundamentais e básicas. E hoje você tem escolhas múltiplas, vários partidos e pode criar outros.

Isso demora…
Nunca teve lei nem governo. Foi o tempo todo assim. Antes capitanias hereditárias, depois vários estados. E pela primeira vez, por causa do nosso nióbio, tem interconexão entre tudo com a internet. E o que vai acontecer agora? Tem eleições, adiantadas ou não. É uma oportunidade. Nunca houve tamanha aula de civismo no Brasil.

“Nunca teve tanto disco, novidades e informações simultâneas”

O que representa a nova política?
Todos os temas, do feminismo à igualdade. A desigualdade social do Brasil choca.  Isso tem que mudar. Só de aproveitar o nióbio, o aquífero, ouro e prata, isso aqui mudava. Então quem assumir essa nova política vai assumir isso.

O  Brasil encaretou?
Não, porque o Brasil libertário da década de 1970 era de grupos pequenos. Hoje virou lei, são multidões. Aumentou a produção cultural, recados sofisticados em uma produção em massa. Nunca teve tanto disco, novidades e informações simultâneas. Os Pontos de Cultura espalhados pelo Brasil. Hoje isso explodiu. Temos os neurônios saltitantes, e isso é natureza. Vem rápido, porque o clamor é imenso.

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Caixa reunindo quatro CDs de Mautner, incluindo o clássico ‘Bomba de Estrelas’, de 1981.


Como vê a discussão sobre a descriminalização e legalização das drogas no país?

Primeiro vou lhe dizer o seguinte: eu tive um período que caí na droga e saí pelos narcóticos anônimos. Não estou desprezando psiquiatra, mas lá é o melhor lugar, porque você não vê diferença de instrução. São todos iguais na doença. Agora, em relação ao debate da legalização. A  história da ayahuasca é   interessantíssima. O Marechal Rondon,  que era índio, com ordem de Getúlio Vargas, tombou a ayahuasca para os científicos.  Mas, para o povo não enlouquecer, criaram o  Santo Daime. Já no   segundo mandato de Fernando Henrique, queriam colocar a ayahuasca como anfetamina, heroína e    cocaína. E Fernando Henrique conseguiu considerá-la patrimônio cultural brasileiro. E a  cannabis é medicina, é Shiva. Mas é a  nova geração que vai decidir sobre a  legalização.

O senhor se considera místico?
Eu não sei. Não tem muita divisão entre as coisas.

Todo profeta é um pouco…
(Risos). Acho que sim. O que é misticismo? Toda fenomenologia, já dizia Lukács, é teologia recauchutada. E é mesmo. E daí? São pensamentos, desde lá de trás. O filósofo Mircea Eliade, em História das Crenças e das Ideias Religiosas, fala das religiões desde a pré-história até as religiões ateias de Marx, Nietzsche e Freud. Ele só não sabia dos tesouros da umbanda e da Jurema.

* Daniel Oliveira é repórter do Jornal A Tarde e colaborador do el Cabong. Esta entrevista foi publicada originalmente na Revista Muito, do A Tarde.

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