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Entrevista: a leveza e a serenidade de Luedji Luna

Aos 25 anos, Luedji Luna teve um ano abençoado. Foi indicada a três categorias no Prêmio Caymmi, ganhando como Revelação; foi contemplada no edital o Prêmio Afro 2017; foi selecionada no edital da Natura e lançou o primeiro disco, ‘Um Corpo no Mundo’. Mesclando música brasileira e africana, passeando por MPB, jazz, ritmos do congo, o batá cubano, samba, reggae, a soteropolitana tem vivido um turbilhão na carreira, se tornando um dos novos nomes mais falados da atual música baiana. Mesmo com tudo isso, ela leva com serenidade o momento, da mesma forma como canta e como parece encarar a vida. Em seu primeiro disco, como mulher negra, faz questão de carregar em sua música questionamentos e falar sobre pertencimento. A serenidade permanece no canto, versos e melodias, até mesmo quando trata do extermínio da juventude negra, das memórias da escravidão ou quando lança um olhar particular e belo sobre a diáspora de ontem e de hoje. Foi em busca de entender e conhecer melhor essa artista, que o el Cabong realizou essa entrevista exclusiva por e-mail que você pode ler abaixo.

Veja também:
– Entrevista Giovani Cidreira: “É do rap que tem saído as melhores coisas”.
– Entrevista Pedro Pondé: “Hoje posso me expressar de forma integral”.

– Entrevista David McLoughlin: “tem uma cena fantástica rolando na Bahia”.

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– Para a maioria, inclusive nós aqui de Salvador, você já surgiu há pouco tempo, já morando e tendo uma carreira em São Paulo. Mas você saiu daqui de Salvador do Cabula. Como foi essa sua trajetória, como começou a trilhar esse caminho da música?

Eu nasci no Cabula, me criei em Brotas, e hoje transito entre Salvador e São Paulo. Minha relação com a música inicialmente foi de muita negação, ela nunca esteve no lugar do deslumbre e do brilho, eu não me sentia especial por ser/querer ser “artista”, muito pelo contrário, me sentia culpada! Fui educada pra ser cientista e funcionária pública, pra disputar espaços de poder, era isso que eu queria desejar e conseguir ser, mas não era. Com 25 anos, finalmente, decidi aceitar o modo como meu espírito se expressava no mundo,eu sou um ser humano que canta e escreve, e é o que tenho feito desde então pra viver!

– A decisão de ir morar em São Paulo foi para investir na carreira? Como tem sido morar lá e manter a relação com a cultura baiana, tão presente em seu trabalho?

Depois de dois anos circulando em Salvador, fui pra São Paulo com uma mala e um sonho dentro, sem conhecer absolutamente ninguém , e sem um plano necessariamente, fui observando a dinâmica da cidade, e observando as entradas que ela me possibilitava, a internet foi um vetor importante também. Ir pra lá foi um risco que eu banquei, fui mostrando o pouco do material que eu tinha, e foi a partir da própria música que os caminhos foram se abrindo. A Bahia nunca saiu de mim, eu sempre me coloquei como cantora e compositora baiana, em primeiro lugar, e ter essa identidade me deu muito respaldo e respeito, a Bahia é escola, régua e compasso mesmo, hoje, ao contrário do que se poderia imaginar, sou mais presente, atuante, e mais reconhecida também, sinto Salvador agora, mais minha do que antes!

“A Bahia é escola, régua e compasso mesmo, hoje, ao contrário do que se poderia imaginar, sou mais presente, atuante, e mais reconhecida também, sinto Salvador agora, mais minha do que antes!”

– A gente sente um certo banzo em sua música, sente falta da cidade? Salvador é inviável para se manter uma carreira como cantora?

Esse banzo é outra falta, esse é um disco que fala de saudade ancestral, é um reflexão sobre corpos negros da diáspora e em diáspora, esse banzo é saudade de África, são as agruras do racismo, é a solidão em tantas dimensões. Salvador é casa, estou sempre por aqui, e acho que manter uma carreira na cidade pode ser possível, pra mim a dificuldade foi começar.

– Você traz em sua música, uma serenidade, uma leveza e uma espiritualidade muito forte. De onde tira essa força e essas inspirações? O candomblé faz parte disso? Ele parece ter forte presença em você e em sua música.

Eu tiro força do candomblé, mas minha inspiração é a vida, na verdade, a canção “Banho de Folhas”, autoria minha e de Emillie Lapa, é a única canção que trago diretamente essa referência. A música que a gente faz é reflexo do que a gente é, ou assim deveria ser, eu me considero uma pessoa leve e serena, muito em função de ter a possibilidade de viver do que amo, tudo isso está na música.

– E como tem sido manter essa leveza e serenidade num momento tão complicado no país, de regressões, um clima pesado e os preconceitos ainda mais exacerbados?

A minha serenidade vem da noção de que eu não vou mudar o mundo, nem resolver o racismo, eu preciso entender que eu sou apenas continuidade de uma luta anterior a mim mesma. Eu preciso ter essa tranquilidade pela minha saúde mental, pra continuar pautando o que eu acho importante, e fazendo o que acho importante. Eu não acredito que os preconceitos estão mais exacerbados, são os mesmos de sempre, na mesma medida, mas eles tão sendo questionados, o que antes era naturalizado, hoje gera tensão social, o que era silenciamento, hoje é debate, é conflito, é disputa pelo poder, e pelo espaço.

– Ser negra e mulher é ainda hoje ter que enfrentar um mundo machista e racista. Como encara isso com sua música? Acha que a arte pode abrir caminhos?

A gente vive numa sociedade racista e machista, e isso se reflete no mundo da música. Quantas mulheres pretas de sucesso, cantora e compositora você conhece? Quantas mulheres negras fora do samba têm visibilidade na mídia? Acho que arte pode abrir caminhos, mas também, políticas públicas, diversidade nas curadorias dos festivais, ações afirmativas, e etc.

“A gente vive numa sociedade racista e machista, e isso se reflete no mundo da música”.

– Como vê esse atual cenário de mulheres na música brasileira? Não só se consolidando como cantoras intérpretes, mas também como compositoras, produtoras…

Está presente no imaginário popular que a mulher é a cantora, a diva, mas nunca a produtora de saber e de discurso, se é difícil encontrar compositoras brancas na música popular brasileira, imagine negras. Existe um movimento no sentido de mudar essa lógica, vários coletivos e eventos estão surgindo no sentido de demarcar o lugar da mulher na composição, mas ainda assim, mesmos nesses espaços, as mulheres negras são minoria, e não estão protagonizando juntos às mulheres brancas. É necessário fazer o recorte ainda. Por essa razão que a Mostra Palavra Preta (Evento que promove a criação da arte negra, dando o protagonismo para mulheres negras) nasceu, um evento organizado por mim e Taitiana Nascimento, poeta, cantora e compositora de Brasilia, onde a gente reúne poetas, compositoras, e artistas visuais pretas do Brasil inteiro.

– A sonoridade de sua música remete a nomes como Mateus Aleluia e Tiganá Santana, que trazem uma Bahia mística, quase sagrada, que ressaltam a cultura negra, mas a menos estereotipada, menos profana. Esse é o caminho que você trilha?

Nunca pensei sobre isso, mas acho importante mostrar essa Bahia diversa. Eu só trilho um caminho que seja honesto, o importante, independente da sonoridade, é que seja um trabalho verdadeiro.

Luedji Luna lançou este ano seu disco de estreia, 'Um Corpo no Mundo'.

Considerada revelação do ano, Luedji Luna lançou este ano seu disco de estreia, ‘Um Corpo no Mundo’.

– Queria que falasse um pouco do disco, como foi a construção desse seu trabalho de estreia?

Produzido e mixado por Sebastian Notini – que também assina os últimos trabalhos de Tiganá Santana e o premiado “Mama Kalunga” de Virgínia Rodrigues – “Um Corpo No Mundo” foi gravado no Estúdio da YB (SP) e é composto por 11 faixas, algumas inéditas e outras já conhecidas​ ​do​ ​público. O disco é um olhar sobre mim mesma a partir do contato, ainda que disperso, com os imigrantes africanos em São Paulo. Eu acredito que seja ​a​ ​dissolução​ ​de​ ​diversas Áfricas,​ eu quis remeter essa ideia de travessia e deslocamento. Com músicos de diferentes nacionalidades, cada um trouxe elementos que resultaram em um disco fluído, com canções que transitam em diferentes referências onde nada é estanque. O que se pretendeu, na verdade, foi levar uma sensação de não-lugar!

A banda foi formada pelo queniano Kato Change (guitarras), o paulista criado na Bahia e filho de congoleses François Muleka (violão), o cubano Aniel Somellian (baixo elétrico e acústico), o baiano Rudson Daniel de Salvador (percussão) e o sueco radicado na Bahia Sebastian Notini (percussão), os arranjos foram pensados coletivamente, pois era importante que cada músico se sentisse parte do trabalho e não um simples executor. Essa junção resultou uma sonoridade sem fronteiras e de difícil definição. ‘Um Corpo no Mundo’ é um disco do mundo!

– A maioria das composições são suas, não é? São trabalhos que guardadas desde o começo de sua carreira? Como chegou nelas para o disco?

Sim, são canções novas, e outras de muito tempo, “Dentro Ali”, “Asas” e “Banho de Folhas”, por exemplo, são mais antigas. Eu fui escolhendo o repertório a partir da canção “Um Corpo no Mundo” que ´ single que dá norte ao disco, e das experimentações das canções nos shows.

– Como define o formato de sua canções, os arranjos, qual o seu processo para construção de suas músicas?

Eu comecei a compor a partir das letras, quando jovem, depois com uns 20 e poucos anos, eu ganhei um violão, e letra e melodia começaram a nascer conjuntamente.

– Como vislumbra sua carreira? Para onde deseja apontar ela daqui pra frente?

Esse é um trabalho faz sentindo pra mim e pra outras pessoas, e seguirei fazendo enquanto ele permanecer assim.

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