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Quais os caminhos para retomada da música? Shows já voltaram

Retomada da música em Salvador já inclui, além de drive ins e lives, shows sem público e apresentações com formações reduzidas em bares.

Texto de Julli Rodrigues*

A pandemia de Covid-19 causou a suspensão de eventos e atividades com público maior que 50 pessoas em Salvador, assim como o fechamento de casas de shows e espetáculos, decisões homologadas em decretos publicados em março deste ano. Com um horizonte repleto de incertezas para os produtores culturais e artistas, a principal saída encontrada pelo setor estava nas lives: realizadas, em um primeiro momento, com equipe reduzida e clima intimista, as apresentações musicais transmitidas ao vivo pelo YouTube e outras plataformas viraram parte da rotina cultural do público em tempos de isolamento social. Seis meses após o fechamento total, a queda das taxas de ocupação de leitos de UTI em Salvador trouxe a retomada de algumas atividades, além de abrir espaço para outras formas de fazer o artista ir até onde o povo está, sem aglomerações. O el Cabong conversou com produtores e gestores culturais soteropolitanos para traçar um panorama desse novo cenário.

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Drive-ins: para alguns, carta fora do baralho

Entre os produtores de grandes eventos, há quem veja nos drive-ins uma alternativa viável. Desde a autorização de funcionamento, regulamentada pela prefeitura em 23 de julho, três espaços do tipo operam na capital baiana, sendo dois patrocinados por grandes marcas. Um deles, o BIG Bompreço Drive-in, localizado no estacionamento do Centro de Convenções, chegou a receber shows de artistas de renome nacional, como Nando Reis e Vitão, com boa vendagem de ingressos (N.E.: o espaço vai receber ainda shows de Titãs, Melim, entre outros). Fora do esquema mainstream, no entanto, o formato não é visto com bons olhos.

Nando Reis Drive in Salvador  Música retomada

Apresentação de Nando Reis no Big Drive In Salvador.

“É um formato que, além de não ser duradouro, se esgota, perde o ineditismo muito rápido. Você vai a um drive-in uma vez, tem aquela experiência, e dificilmente vai de novo. Principalmente quando se tem shows e palestras, a interação é muito estranha e fria. Para elogiar o artista, você tem que buzinar, acender luzes. É um ambiente muito hostil, na minha perspectiva”, avalia o produtor Bruno Boscolo, sócio do Feed Experience Hub, que produz eventos como o Biergarten e o Flow Festival no Trapiche Barnabé, no Comércio, além de gerir o local.

Boscolo conta ter recebido propostas para criar um drive-in no Trapiche e assumir a gestão de outro espaço neste formato, mas declinou. “Não aceitei justamente por não concordar com o conceito do projeto. Todos os drive-ins que acompanhei no Brasil foram experiências malsucedidas do ponto de vista financeiro, com exceção das que foram bancadas por marcas”, diz.

No contexto da pandemia, Boscolo considera que os formatos de apresentações online continuam sendo boas opções para produtores e artistas. No entanto, ele aponta para certo “cansaço” do formato: “Alguns festivais, como o Coala e o Sarará, fizeram edições online. Algumas empresas tiveram estratégias online pontuais que foram bem-sucedidas. Já outros que insistirem demais podem acabar cansando o público, pois é um formato que nunca foi muito bem aceito”. (vejam matéria sobre como festivais se adaptaram)

Lives: da sala de casa para os palcos

Com a aparente saturação das lives de pegada mais intimista, outra tendência que surge para o setor é a realização de apresentações em palcos de teatros e espaços culturais, sem presença de público. Na última sexta (25), o Complexo do Teatro Castro Alves inaugurou o projeto “Voltando aos Palcos” com um espetáculo do cantor Lazzo Matumbi na Sala do Coro.

A iniciativa de retomada inclui shows de outros cinco artistas prestigiados na cena baiana – Jarbas Bittencourt, Leo Cavalcanti, Majur, Marcia Castro e Nara Couto – e performances do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) e da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), corpos artísticos do TCA. Tudo transmitido ao vivo pelo YouTube, pela TVE e pela Educadora FM, sem participação presencial do público, ao menos em um primeiro momento.

A diretora artística do TCA, Rose Lima, explica que o “Voltando aos Palcos” marca um momento de transição e é uma maneira de solucionar, ao mesmo tempo, duas questões trazidas pela pandemia: “A gente acha que esse formato de lives dentro de casa, para o artista, já está um pouco mais saturado, e a possibilidade de o artista fazer no palco já dá pra ele melhores condições técnicas e artísticas. Ao mesmo tempo, com o nosso público assistindo, mesmo de casa, ele já começa a se sentir chegando perto do teatro”.

De acordo com Rose, foram tomadas todas as precauções para a segurança dos artistas e da equipe envolvida. “A Sala do Coro propicia que o artista já entre diretamente no palco, sem precisar passar pelo camarim. Toda a equipe fez testes rápidos, além do uso de álcool gel, máscara, distanciamento… Não só na hora do espetáculo, mas na montagem e nos ensaios também”, pontua.

Padrinhos da musica com Afrocidade foi dentro do teatro sem público e transmitido pela internet. (foto: Caio Lírio)

Antes mesmo do “Voltando aos Palcos”, a cena musical baiana viu outra experiência de show com transmissão online realizado em um palco tradicional. Em 28 de agosto, a banda Afrocidade recebeu o cantor Russo Passapusso na live do projeto “Padrinhos da Música”, que aconteceu no Goethe Institut, no Corredor da Vitória. Para a produtora Fernanda Bezerra, da Maré Produções Culturais, a mistura do online com o presencial vai dar o tom da maioria dos eventos nos próximos meses, pelo menos enquanto não houver vacina disponível para a Covid-19.

“A live do ‘Padrinhos’ atingiu mais de 10 mil pessoas, inclusive de fora do Brasil. Fomos impulsionados a lidar com todas essas tecnologias que não usávamos de forma tão intensiva. Agora o digital chegou para ficar, acho que quase nenhum projeto cultural agora vai ser realizado sem aproveitar as potencialidades do digital. A médio e longo prazo, os eventos presenciais serão inviáveis”, avalia.

Ao vivo: nada será como antes

Por um lado, as lives ganham novo fôlego ao serem abraçadas pelos palcos dos teatros e espaços culturais. Em contrapartida, a perspectiva de um retorno cauteloso às atividades presenciais é unanimidade entre os produtores ouvidos pelo el Cabong. “As pessoas estão carentes de momentos presenciais, porque a cultura é ao vivo, tem essa dimensão do encontro, que é muito importante para o produto cultural. Pensando também nessa saturação, e para dar esse respiro, é importante que os projetos retomem no início do próximo ano”, observa Fernanda.

“Acho que já poderíamos ter avançado um pouco mais na reabertura em Salvador, mas estamos em um entrave que é uma questão mais política. Temos que ter essa preocupação com a vida, eu concordo, temos que ser prudentes. Os eventos maiores, para mais de 3 mil pessoas, dificilmente voltam a acontecer esse ano, mas os movimentos menores têm que voltar a acontecer gradativamente”, opina Boscolo.

Rose Lima lembra que o projeto “Voltando aos Palcos” prevê a abertura dos espaços do TCA para pequenos públicos, em um futuro próximo: “O nome do projeto já remete a uma coisa em contínuo. Ou seja, se em novembro a gente puder ter na sala 40 pessoas, com todo o cuidado e cautela, nós teremos. Se em dezembro a gente puder ter 60 pessoas, a gente também poderá colocar. Mas nesse início, ainda é sem plateia”.

Música retomada

Tiago Velame na reabertura dos shows no Rhoncus.

Um passo importante para a retomada dos eventos presenciais foi dado no último dia 11, quando a prefeitura de Salvador autorizou a abertura de cinemas, teatros e casas de espetáculo, mediante protocolo especial. Uma semana antes, foram permitidas as apresentações em formato de “voz e violão” nos bares. Nos finais de semana seguintes às liberações, diversos bares e restaurantes da capital anunciaram shows nesse formato para o público, seguindo protocolos de distanciamento e limitando o acesso do público. Um deles foi o Rhoncus Beer Garden, localizado no Caminho das Árvores. No dia 18, a casa recebeu o cantor Lutte, com reservas esgotadas e na sexta (25), contou de novo com apresentação do cantor Tiago Velame, também com reservas esgotadas.

“Não foi uma decisão fácil. Prova disso é que priorizamos o Rhoncus do Caminho das Árvores em detrimento à unidade do Rio Vermelho nessa retomada, por ser ao ar livre, mais espaçoso. Decidimos encerrar as atividades do Rio Vermelho, que tem um modelo ainda sem perspectiva de autorização da reabertura”, relata o proprietário, Guilherme Pauperio, acrescentando que um dos motivos para o retorno dos shows foi a preocupação com os artistas da cidade, que ficaram sem receitas durante a pandemia. Pauperio ressalta que o cenário ainda é incerto, mesmo que a resposta do público seja positiva: “É necessário fazer muita conta para ver se a retomada é viável ou se vai apenas aumentar o buraco financeiro criado por esses quase seis meses sem funcionamento”.

Outros espaços reabriram para shows na cidade, como o Berro D´Água, no Porto da Barra, que tem recebido nomes como a cantora Maysa Ribeiro, show de jazz, tributo a Eric Clapton com Keko Pires e Julio Caldas. O Entre Folhas & Ervas, na Lapinha, também vem realizando shows. Nomes como Lutte, Luis Namer, Dom Chicla e Tay Lops já se apresentaram ou estão programados e aos poucos a casa vai voltando à normalidade pré-pandemia. O Mariposa no Boulevard 161, na Pituba, e em Villas também voltaram à ativa, com nomes como Lutte, A Feira, 71nicius e Bruma na programação. O Escritorio do Gasosa, no Rio Vermelho, O Quintal das Mangueiras, no Imbuí, o Camarão Villas, em Villas do Atlântico são alguns outros lugares que estão recebendo shows. (Veja agenda de shows, lives e apresentações em drive ins em nossa agenda).

Para as casas de shows, a incerteza é ainda maior, embora haja a autorização de funcionamento com público reduzido. A falta de viabilidade econômica é um dos fatores citados pelo produtor e compositor Vince Athayde para manter fechada a Commons Studio Bar, localizada no Rio Vermelho, da qual é sócio: “Pelas nossas pesquisas, o nosso público não se arriscaria a estar no espaço. Para nós, os custos e riscos de marketing negativo com contaminação seriam grandes para ter uma receita ainda menor. Prejuízo em todos os sentidos”.

Vince afirma ter recebido propostas para realização de lives no palco da Commons, mas as ofertas não cobriam sequer os custos da religação da energia do espaço, que está cortada. Com a operação nos antigos moldes impossibilitada pela pandemia, a casa passará por uma reformulação. “Estamos pensando em novos formatos, sim, mas não como alternativos. Estamos reconfigurando o espaço totalmente de forma contínua. Mas só iremos lançar quando tivermos como executar um planejamento. Não queremos perder tempo com ações avulsas”, explica.

O que dizem os decretos:

TEATROS E CASAS DE ESPETÁCULOS

Decreto Nº 32.814, de 11 de setembro de 2020.

Não há restrição de horário. Os espaços devem funcionar com venda de ingressos preferencialmente pela internet, distanciamento mínimo de duas poltronas por venda e intervalo mínimo de uma hora entre as sessões. Apenas 100 pessoas devem estar presentes por espetáculo. O uso de máscara é obrigatório do início ao fim da sessão, e é proibido fazer visitas ao camarim. Os frequentadores devem higienizar as mãos com álcool gel e ter a temperatura aferida na entrada dos espaços.

VOZ E VIOLÃO EM BARES E RESTAURANTES

Decreto nº 32.656, de 05 de agosto de 2020, com redação alterada pelo decreto Nº 32.798, de 04 de setembro de 2020

A execução de música ao vivo fica permitida com formação instrumental e vocal de até 2 integrantes, a exemplo de voz e violão, voz e teclado, violão e percussão ou formação similar, com intensidade máxima do som de até 60 dB, como disposto na Lei Municipal nº 5.354/1998. Estão proibidas quaisquer atividades interativas que possam resultar em contato ou aproximação dos artistas ou da equipe de produção com os frequentadores, assim como quaisquer ações que gerem contato ou proximidade entre os clientes, a exemplo de dança e aproximações ao palco ou local da apresentação.

* Julli Rodrigues é jornalista formada pela UFBA. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter e colabora com o el Cabong escrevendo resenhas de álbuns. Apresenta a série mensal “A Música no Tempo” no Especial das Seis da Educadora FM, sobre o contexto da MPB entre os anos 60 e 80, e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas.

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