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Discos: O rap experimental de Jaya

Depois de uma diminuída no ritmo, voltamos ao normal no site e com mais resenhas de discos baianos lançados em 2019. Agora destacamos Jaya, uma baiana de América Dourada, mas que se estabeleceu em Curitiba, e que tem movimentado o rap por lá. Ela lançou “Não Foi Tempo Perdido”, seu disco de estreia, que aqui ganha uma análise de Paula Carvalho.

Veja também:
Discos: ‘Matriz’ – Pitty.
– Discos: ‘Ê Laiá’ – Matheus Dourado.
– Discos: ‘Mix$take’ – Giovani Cidreira.
– Bahia mostra a cara de sua música em dezenas de novos videoclipes.

Por Paula Carvalho*

De volta depois de ter participado de duas músicas na coletânea Suite Para Corações Urbanos, de 2014, a baiana radicada em Curitiba Jaya lança o seu primeiro disco, Não Foi Tempo Perdido, cheio de boas surpresas. O álbum, de certa forma, ajuda a consolidar a cena do rap underground paranaense, que circula em torno de pequenos selos como o Akimemu, Avancx Records, NOUNOUHAU e, mais recentemente, o Suíte Music, do produtor e também rapper Bface. No disco de Jaya, ele assina os beats junto a Jxtacincx, Shaolin Drunk, Cafebeatz, e Rodrigo Zin.

Entre love songs e a faixa que dá título ao álbum, uma carta de amor ao próprio rap, chama a atenção no trabalho o uso de instrumentais com texturas mais experimentais – ora puxando para um trap, ora para o jazz e R&B. Em geral, predomina uma vertente mais lo-fi (como em Catuaba), sem beats tão marcados, o que torna o encaixe do flow um trabalho mais complicado e interessante. “Não Foi Tempo Perdido”, “Gostei Mas Passou” e “Encontros Curtos” dão exemplos disso. Já Savage, uma parceria com Rodrigo Zin, é a mais pop do álbum, passeando pelo reggaeton e o funk rasteirinha.

Embora afirme o seu compromisso com o rap (“Sem futuro, disseram, cê não serve pra nada / Só que nesse, mistério, descobri minha arma / Ser poeta alivia, tira o peso da alma”), a maior parte das letras de Jaya versam pelos relacionamentos – e nesse espírito, fazem lembrar o Eletrocardiograma, disco de 2017 de Flora Matos. Note-se que é ponto positivo: a maior liberdade para tratar de amor, sexo e separações é conquista não menos importante do que a da descentralização do rap (que tem como marco, talvez, Sulicídio, de 2016).

A produção de rap do sul do país tem aparecido com nomes como Makalister, de Santa Catarina, e Zudizilla, do Rio Grande do Sul. Da cena curitibana, o nome mais destacado é o de Zin, que lançou três discos no ano passado e participa de diversas músicas em Não Foi Tempo Perdido. No embalo, vale acompanhar o trânsito de Jaya entre América Dourada – sua cidade natal, na região de Irecê – e a República de Curitiba, cidade misteriosa que ainda deve render uns bons versos.

* Paula Carvalho é jornalista. Baiana, atualmente reside em São Paulo, onde atua como repórter da revista Bravo e do site SP de Música.

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