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Discos: Mila Santana tem estreia promissora com Melanina

Mesmo com a crise generalizada em que vivemos, provavelmente, nunca tivemos a produção de tantos novos discos na Bahia. ‘Melanina’, de Mila Santana é mais um trabalho de uma artista pouco conhecida que é lançado por aqui. É, certamente, mais um nome que desponta com força no já rico cenário musical local. O el Cabong conferiu o EP e esse texto de Juliana Rodrigues disseca o trabalho.

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Por Juliana Rodrigues*

Após vários anos na cena musical, cantando em cruzeiros marítimos pela Europa e notabilizando-se principalmente por covers de sucessos do jazz e do soul, a cantora baiana Mila Santana lançou em maio de 2019 o EP “Melanina”, realizado em parceria com o DJ Raíz. O disco inteiramente autoral foi gravado há cerca de dois anos. Ele traz, em suas cinco faixas, a proposta de “criar algo que pudesse empoderar as pretas e pretos na situação política e social dos tempos atuais”, de acordo com o material de divulgação enviado à imprensa.

Diversidade rítmica

Não se pode negar que a temática do empoderamento negro em suas diversas vertentes dá o tom do trabalho. Essa característica não aparece apenas nas letras, mas também na parte musical. Os arranjos passeiam por gêneros como afrobeat, dancehall, kuduro e samba. A colaboração do DJ Raíz se mostra valiosíssima neste sentido, já que se trata de um dos precursores da cultura dos soundsystems baianos, integrante do coletivo Ministereo Público. Há, ainda, a participação de nomes como Pedro Fonseca e Alan Dugrave.

O EP é aberto pela faixa “Quebra Daqui”, um misto de funk, pop e kuduro com versos em inglês e português. Muito adequada às pistas e paredões. Saltando a ordem do “faixa a faixa”, é possível dizer que “Melanina” termina da forma como começa. Isso porque a quinta e última música, que leva o título do álbum, guarda semelhanças com a primeira. Ambas são bilíngues, dançantes – embora “Melanina” esteja apoiada em uma base que mescla dancehall com percussões africanas. E exploram, em suas letras, o convite à dança e a temática do empoderamento através do “lacre”, de chamar a atenção através do visual e da maneira como o corpo se movimenta. Embora sejam boas faixas, soam como “pop genérico” quando confrontadas com o restante do EP, que apresenta mais substância.

Empoderamento

O belíssimo timbre de Mila fica em evidência em duas faixas. “Não Para”, uma espécie de “tecnoijexá” que narra uma aparente desilusão amorosa. E na percussiva e radiofônica “Sa Minina”, cuja letra com ar levemente existencialista reflete sobre o sonho e a garra que persistem em meio à luta e à dificuldade. “Não sou mais um na multidão / o sangue, o preço já foi pago” são versos que ganham ainda mais sentido quando analisados à luz das questões enfrentadas pelo povo negro. Há, nesse discurso, algo de parecido com o “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” escrito e cantado por Caetano Veloso.

A melhor faixa do EP é, sem dúvida, “Cor Preta”, que traduz de forma consistente a proposta empoderadora e empoderada do disco. Citando Nelson Mandela e Dandara dos Palmares, a letra traz um forte discurso de afirmação racial. Nela, conclama o povo negro a olhar para a frente e ocupar os espaços sem esquecer as raízes e dívidas históricas. Tudo isso em versos simples – mas de forma alguma simplistas – e com um refrão forte. Daqueles que podem ser facilmente aprendidos pelo público e cantados em uníssono durante um show.

Estreia promissora

No panorama geral, a estreia autoral de Mila Santana tem muito mais acertos do que pontos a serem lapidados. Se a artista decidir seguir pelos caminhos musicais pavimentados por DJ Raíz em ‘Melanina’, conseguirá apresentar um trabalho consistente em um eventual álbum cheio. O repertório do EP, por sinal, merece ser apresentado ao vivo, já que é grande o potencial de envolver o público. Enquanto isso não acontece, ele certamente deverá embalar as pistas de dança das festas alternativas baianas.

Ouça ‘Melanina’:


* Juliana Rodrigues é jornalista formada pela UFBA. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas. Produziu o radiodocumentário “Além do que se ouve – Sonoridades da MPB nas décadas de 1960, 1970 e 1980” como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, em 2018. Tem passagens pelas rádios BandNews (2017-2018), Educadora FM (2015-2017).

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