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Discos: ‘Matriz’ – Pitty

A sequência de lançamentos de discos baianos no ano ganhou um novo capítulo com o novo trabalho de Pitty, ‘Matriz’. A cantora e compositora volta às origens com seu novo trabalho que aqui no el Cabong ganhou uma análise caprichada de Juliana Rodrigues.

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Por Juliana Rodrigues*

Desde que surgiu para o grande público com o disco ‘Admirável Chip Novo’, em 2003, Pitty teve o nome associado ao epíteto “roqueira baiana”, que carrega consigo um subtexto de estranhamento, como se os dois termos fossem mutuamente excludentes. É compreensível: afinal, na década anterior, a produção musical baiana mainstream desabrochou no cenário nacional calcada na axé music carnavalesca e no pagode.

É compreensível, também, que Pitty tenha passado os últimos anos buscando fugir dessa inevitável associação. Mas, assim como para quebrar uma regra é preciso conhecê-la, para voltar às origens com força é preciso se afastar delas. Dezesseis anos depois de sua estreia solo, a cantora e compositora lança ‘Matriz, quinto álbum de estúdio da carreira. Com produção de Rafael Ramos (como os anteriores), o trabalho cumpre brilhantemente o papel de reconectá-la às suas raízes baianas e mostrar que um longo caminho foi trilhado desde então.

Ruptura e continuidade

Depois da viagem de renascimento e reinvenção de si mesma – a “troca de pele” – retratada em ‘Setevidas (2014), o que há em ‘Matriz’ é um processo que denota, ao mesmo tempo, ruptura e continuidade em relação ao trabalho anterior. Por um lado, Pitty resgata a musicalidade baiana e a integra ao seu som. Esse elemento aparece no sample de “Noite de Temporal”, de Dorival Caymmi, presente na faixa de abertura, “Bicho Solto” (Pitty). Também na regravação de “Motor” (Teago Oliveira), registrada primeiramente pela banda Maglore. Na sonoridade “capoeirística” de “Redimir” (Pitty), que tem Pupillo, ex-Nação Zumbi, na percussão. Finalmente, nas participações de BaianaSystem, Lazzo Matumbi e Larissa Luz ao longo das 13 faixas (sendo duas vinhetas).

Trata-se de um movimento de olhar para o lugar de origem – tanto o de outrora quanto o de hoje – da forma como ele se apresenta enquanto espaço de existência, portanto, um distanciamento da pegada mais introspectiva do álbum anterior.

Retornos

Ao mesmo tempo, essa viagem de retorno à matriz inclui também um retorno a lugares internos, memórias e subjetividades, como expresso na faixa “Bahia Blues” (Pitty). Nela Pitty narra desde a infância no Centro Antigo de Salvador até a juventude na cena alternativa de rock, chegando à condição de ser “retirante cultural da seca do meu lugar”.

O mesmo na homenagem representada pela regravação de “Para o Grande Amor”, composição de Peu Sousa, personagem essencial para a vida e a carreira da artista no início de tudo. É um tributo mais solar do que o do álbum anterior, a faixa “Lado de Lá”, ainda fortemente marcada pela dor da perda do amigo, morto em 2013. Enquanto “Lado de Lá” nunca chegou a ser tocada ao vivo, “Para o Grande Amor” tem todo o potencial de virar hit radiofônico. Através da catarse, a dor cicatrizou e virou nostalgia e doçura.

Convidados

Para definir ‘Matriz’, Pitty usa a metáfora da blueswoman que “sai da plantação de algodão para tentar a vida na cidade grande”, voltando anos depois e se aproximando da essência de uma “baianidade visceral”. Nesse sentido, o álbum é conceitualmente coeso, além de incorporar bem os elementos rítmicos da Bahia. “Roda” (Pitty, Roberto Barreto, Russo Passapusso), com participação do BaianaSystem, é um dos exemplos dessa característica sonora e traz verdadeira simbiose entre os estilos da artista e do grupo. Outro momento, mais discreto, está na programação eletrônica que abre “Ninguém é de Ninguém” (Pitty/Daniel Weksler), uma ode ao amor que exclui a sensação de posse.

Há recados claríssimos de Pitty enquanto artista e mulher em “Bicho Solto” e “Sol Quadrado”, faixas que versam, respectivamente, sobre a necessidade dolorosa de “fazer parte do jogo” negando a própria essência e sobre a decisão de deixar seu próprio eu desabrochar em meio ao “sistema”, o que pode ser lido tanto na esfera pessoal quanto musical. A segunda, com participação de Larissa Luz, questiona sem rodeios: “mudar o sistema por dentro é ingenuidade ou talento?”.

Consciência política

É possível perceber uma proximidade, em termos de discurso, com a ideia do show ‘Falso Brilhante’, apresentado por Elis Regina de 1975 a 1977. O roteiro do espetáculo tratava precisamente da ascensão de um artista até o estrelato e da descoberta do lado feio da fama, das concessões que precisavam ser feitas por baixo do paetê e da lantejoula – coincidência ou não, em caráter ao mesmo tempo geral e autobiográfico.

A união da coletividade e a consciência política são temas de “Noite Inteira” (Pitty/Martin Mendonça/Gui Almeida), com participação de Lazzo Matumbi, já apresentada como single no último mês de março e muito adequada aos tempos sombrios do Brasil de 2019. Em “Te Conecta” (Pitty), lançada em agosto de 2018 como primeiro “anúncio” do quinto álbum, a temática é o movimento de reconexão consigo mesmo e com o entorno, dialogando com a sonoridade do mento, gênero musical jamaicano que antecedeu o reggae. Há, ainda, espaço para um rock dançante: “Submersa” (Pitty), que foi escrito durante o período pós-nascimento de Madalena, filha da artista. Em uma entrevista, Pitty contou que a música surgiu após ela perceber que tinha ficado muito tempo em casa, dedicada ao papel de mãe.

Rótulos

Falando em “Submersa”, vale dizer que a faixa contribui, junto a “Para o Grande Amor”, para uma espécie de “quebra de clima” – mas não de discurso – na narrativa criada pelo álbum. Desde “Bicho Solto” até “Redimir”, ‘Matriz’ segue uma linha pautada em uma abordagem intensa da subjetividade, que em certos momentos beira o sombrio. Porém, em “Para o Grande Amor”, é como se as nuvens se dissipassem de repente e a luz entrasse de vez: uma faixa alegre, menos densa, que em uma primeira audição destoa um pouco do clima que dominava o disco até então. “Submersa”, logo em seguida, ajuda a completar essa impressão com seu ritmo pulsante e dançante. No entanto, em “Sol Quadrado”, o tempo volta a fechar. Embora essa sensação de “ruptura” seja algo que vale um registro, ela acaba deixando de existir nas audições seguintes e não chega a atrapalhar a experiência.

Há quem diga que ‘Matriz’ é o melhor álbum de Pitty, e certamente essa afirmação não é exagero. Olhando para suas origens e para dentro de si mesma sem deixar de vislumbrar o futuro, a cantora e compositora renovou seu som e fez as pazes com o rótulo de “roqueira baiana”, mostrando que, afinal de contas, essa alcunha não significa um demérito, e sim um sinal de qualidade e diversidade. Existe algo mais rock’n roll do que voltar à raiz, afinal?

Ouça o disco:

* Juliana Rodrigues é jornalista formada pela UFBA e pesquisadora musical. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas. Produziu o radiodocumentário “Além do que se ouve – Sonoridades da MPB nas décadas de 1960, 1970 e 1980” como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, em 2018, e tem passagens pelas rádios BandNews (2017-2018) e Educadora FM (2015-2017).

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