Para quem gosta de música sem preconceitos - el Cabong

Com menos diversidade, Furdunço tem programação dos dois dias divulgada

Criado como opção para o folião pipoca no Carnaval de Salvador, o Furdunço terá sua terceira edição em 2016 mais uma vez em duas datas. O primeiro desfile será no dia 31 de janeiro, na orla da Barra, em forma de ‘pré-carnaval’, e o segundo, no dia 5 de fevereiro, sexta-feira de folia, no Campo Grande. A programação completa da festa do primeiro dia contará com 34 trios ou minitrios em desfile no agora oficializado Circuito Orlando Tapajós (avenida Oceânica, entre o Clube Espanhol e o Farol da Barra), no segundo dia de desfile serão 32 atrações.

O modelo continua abrindo espaço para artistas do universo independente, mas cada vez  menos, e com maior presença de nomes da indústria do Axé, que não perde oportunidade de aproveitar qualquer espaço. Esse ano, além de BaianaSystem, Micro trio Ivan Huol, Adão Negro e Orkestra Rumpilezz, e dos pequenos trios tocando carnavais das antigas, teremos novamente nomes como Banda Eva, Alavonté, Amanda Santiago e a inclusão de, quem diria, Durval Lelys. Quase nenhum nome da música contemporânea baiana, que já até havia entrado timidamente em anos anteriores. Só para citar alguns, nada de Bailinho de Quinta, Retrofolia, ou Márcia Castro, Ifá Afrobeat, Larissa Luz e OQuadro. Além da ausência total dos blocos afros, também presentes em edições anteriores.

Importante não esquecer que o Furdunço surgiu inicialmente como uma proposta de opção diferente dentro do Carnaval. Assim mesmo, sem enfrentar seu principal problema, que é, e continua sendo, privilegiar o desfile nos circuitos para os grandes blocos privados. Como se fosse proibido mesclar a passagem de trios independentes, pequenos trios e blocos afro nos principais horários ocupados pelas estrelas da Axé Music e blocos. Como acontece há muito tempo com os tradicionais blocos afro e os trios independentes, os micro e mini trios ficaram sujeitos apenas a horários alternativos.Furdunço

No primeiro ano, em 2014, o Furdunço aconteceu em duas datas durante o período da festa, na sexta-feira, à tarde, no Circuito Osmar/ Centro e na segunda, à noite, no Circuito Dodô/ Barra. Naquele ano passaram pelo projeto nomes considerados mais independentes da grande indústria da Axé Music, como Ganhadeiras de Itapuã e Orquestra de Pandeiros, Baby do Brasil e Paulinho Boca, Adão Negro, Alexandre Leão, Microtrio, Bailinho de Quinta, Paroano Sai Milhó, Jota Veloso, BaianaSystem, entre outros. A presença de nomes mais badalados do Carnaval se resumia ao trio da Caetanave reformado por Carlinhos Brown, e que seguiu com ele, Armandinho, Luiz Caldas e convidados, além do Alavontê, então um projeto em início.

A promessa do Prefeito ACM Neto e do então secretário de Desenvolvimento, Turismo e Cultura, Guilherme Bellintani, era que no ano seguinte o Furdunço iria crescer. “O movimento agradou em cheio ao folião pipoca de Salvador e aos turistas e deverá ser ampliado ano que vem”, tinha dito Neto em coletiva na época, como está no jornal Correio*. A festa não só não cresceu, como deixou de acontecer em um dos dias da festa, passando a ser realizado no fim de semana anterior ao Carnaval. Estava inventado o pré-carnaval oficial. Desde 2015, o Furdunço passou então a ter apenas um dia no período da festa, a sexta-feira à tarde, dia e horário menos prestigiado e disputado.

A programação continuava abrindo espaço para os chamados artistas independentes, mas cada vez mais injetando nomes da indústria dominante, como Alavontê (combo formado por ex-estrelas do axé), Banda Eva, Mametto, além de nomes de segundo time desse universo com trabalhos em outras searas, como Batifun e Estakazero, respectivamente artistas de samba e forró.furduncointerna2 Furdunço

Entre os nomes de cunho mais artístico do que comercial, estavam nomes de peso de antigos carnavais, como Armandinho, Dodô e Osmar, o Bloco do Jacu com Waltinho Queiroz, Paroano Sai Milhô e Carlos Pitta, blocos afro, como Ilê Aiyê, Malê e Muzenza; além de nomes contemporâneos ligados à festa, como Ivan Huol e o Microtrio, Retrofolia e Balinho de Quinta, e do circuito pop independente, como BaianaSystem, Rumpilezz, Adão Negro e Mr. Armeng.  Essas dezenas de artistas e pequenos trios poderiam estar espalhados durante os 6 dias de festa pelos circuitos, intercalados com grandes atrações. Algo como a Secretaria de Cultura do Estado havia iniciado no projeto Carnaval Pipoca e desistiu sem esperar ao menos um amadurecimento da proposta.

Como vimos boa parte desses nomes e desses perfis de artistas sumiram do Furdunço nesse ano de 2016. O projeto é interessante, uma boa oportunidade de se aproveitar o Carnaval, especialmente para famílias, mas é como se fosse uma cota, oferecida em um horário não disputado e de pouca visibilidade. Ele não democratiza de fato a festa, mantém a estrutura monopolizada por uma indústria viciada e não oferece diversidade nos circuitos para o folião. É como se as rádios decidissem oferecer uma hora diária de pouca audiência para tocar outra música que não aquela que toca o tempo todo a base de jabá e de programadores engessados. Um furdunço organizadinho, limitado e que não vai ampliar a lógica do mercado.

Programação completa do Furdunço pré-Carnaval
(dia 31 de janeiro – Barra/ Ondina):

15h00 – Caetanave com Carlinhos Brown
15h1h – Oficina de Frevos e Dobrados
15h20 – Bonecos em Folia
15h30 – Cia de Danças e Folguedos
15h40 – Bereguedê Transeunte
15h50  Bandaço Jurema
16h00 – Clube dos Caretas
16h00 – Tridentrocks com Márcia castro, Otto e Ellen Oléria
16h00 – Fobica – Armandinho Dodo e Osmar
16h10 – Quabales
16h20 – Mega Power Trio
16h30 – Silvia Patricia – Tuc Tuc
16h40 – Rixô Elétrico e Fred Menendez
16h50 – Nano Trio e Garampiola
17h00 – Chico Gomes e Peixinho Elétrico
17h10 – Baianafolia
17h20 – Os Informais
17h30 – Cegueira de Nó
17h40 – Grupo só Samba de Roda
17h50 – Alex Costa e Coreto Elétrico
18h00 – Wilson Café
18h10 – Microtrio – Ivan Huol
18h20 – Flor Serena e Rural Elétrica
18h30 – Barkalôca – Durval Lelis
18h40 – Amanda Santiago
18h50 – Baby E Paulinho
19h00 – Virgílio
19h10 – Adão Negro
19h20 – Grupo Do3 com Orquestra de Pandeiros
19h30 – Samba de Farofa
19h40 – Batifun
19h50 – Vitrola Baiana
20h00 – Os Marchistas
20h10 – Carlos Pitta
20h20 – Janela Brasileira
20h30 – Alavontê
20h40 – Baiana System

Programação do Furdunço Sexta de Carnaval
(dia 5 de fevereiro – Campo Grande)

14h – Oficina de frevos e dobrados
14h10 – Bonecos em Folia
14h20 – Cia Danças e Folguedos
14h30 – Bandaço Jurema
14h40 – Clube dos Caretas
14h50 – Quabales- Trio
15h – Bereguedê Transeunte
15h10 – Paroano sai milhó
15h20 – Mega Power Trio
15h30 – Fred Menendez e rixô elétrico
15h40 – Nano trio e garâmpiola
15h50 – Chico Gomes e peixinho elétrico
16h00 – Baianafolia
16h10 – Os Informais trio
16h20 – Geovana Costa – Trio
16h30 – Ceguêra de Nó
16h40 – Grupo de Samba de Roda
16h50 – Alex da Costa e coreto elétrico
17h – Micro Trio Ivan Huol
17h10 – Adão Negro
17h20 – Virgilio
17h30 – Vitrola Baiana
17h40 – Samba de Farofa – Trio
17h50 – Triokê
18h – Janela Brasileira -Trio
18h10 – Batifun – trio
18h20 – Os Marchistas – Trio – Marcelo Quintanilha, Thathi e Jota Veloso
18h30 – Flor Serena e Rural elétrica
18h40 – Orkestra Rumpilezz
18h50 – Alavontê
19h – BaianaSystem

5 Comentários

  1. Paulo Reply

    Uma pena! O que deu um gosto de esperança na renovação do carnaval de Salvador em 2014, agora deixa um sabor amargo de desesperança para os próximos anos. A “indústria” do axé parece “Mun Ha” – a forma decadente que sempre se transforma para ter vida eterna. A lógica deveria ser mais dias, mais horários, mais presença de ‘Furdunços’ na festa. Pré carnaval? Massa! Mas 2 dias deveriam ter sido mantidos (um em cada circuito, pelo menos). A essência do carnaval daqui é a diversidade, e não o monopólio de uma só musica, uma só forma, uma só lógica: gerar e ganhar dinheiro. Nada contra ganhar dinheiro e gerar receita ou qualquer estilo musical ou de negócio do entretenimento (blocos de corda, camarotes etc.). Mas já passou da hora de olhar mais seriamente pra “privatização” do carnaval baiano. Até pra não perder seus diferenciais e, por consequência, apelo frente a uma outra indústria: a do turismo. As estrelas do Axé envelhecerão, seu público idem. Oportunidade de vê-las há durante todo o ano, em todo o território nacional. Mas a vivência do carnaval de rua, o contato com a diversidade (em todos os sentidos) e com artistas que se renovam (?) apresentando formas e fórmulas diferentes (?), talvez só existam com tamanho potencial aqui.
    Pra não falar demais, Luciano, faço mais duas observações: o carnaval de rua de outras capitais tem crescido (vide Rio) e o poder político executivo (prefeitura e governo do estado) me parece que deram passos atrás neste carnaval.

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