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Roger Waters mostra como rock pode ser arte, política e crítica social

Com direito a música nunca tocada, homenagem a Moa do Catendê e clássicos, ex-Pink Floyd faz show memorável e leva 30 mil pessoas à experiência sensorial na Arena Fonte Nova.

Texto: Luciano Matos | Fotos: Kate Izor e Luciano Matos | Vídeos: Vitor Tamar, Mira Silva, Alexandre Cabral e Luciano Matos

Desde que surgiu décadas atrás, o Rock Progressivo se propôs a elevar o rock a um patamar elevado como arte, com trabalhos mais elaborados e conceituais, longas canções, temáticas distópicas e críticas e questionamentos sobre a sociedade contemporânea. Nos shows, a ideia era transcender os álbuns com cenários grandiosos e performances teatrais, oferecendo uma experiência sensorial ainda mais arrebatadora. Foi exatamente isso que Roger Waters mostrou para cerca de 30 mil pessoas em uma apresentação histórica no último dia 17 de outubro, na Arena Fonte Nova, em Salvador, em seu quarto show da turnê Us + Them pelo Brasil.

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Pincelando clássicos da obra de sua ex-banda, Pink Floyd, o artista inglês demonstrou como a arte pode e deve dizer muito. Com um aparato gigantesco, promoveu um mergulho sensorial de três horas, uma experiência estética que foi muito além de simples entretenimento. Não havia espaço para as estratégias comuns da música pop, tudo ali, músicas, letras, efeitos, imagens, elementos cênicos, tinha um sentido. Era a arte e o rock sendo utilizados como ferramentas para tecer uma crítica voraz às condutas mais cruéis e questionáveis da humanidade.

Tirania, autoritarismo, fascismo, opressão, domínio militar, assim como o uso perverso do capitalismo, das redes sociais, a supressão de liberdades individuais e de expressão, a desigualdade social, a destruição ambiental, o desrespeito aos direitos humanos, o consumismo desenfreado, tudo escancarado do início ao fim e dando nomes aos bois. Sem tréguas. O presidente norte-americano Donald Trump era o maior alvo, mas também eram citados e mostrados diversos outros líderes mundiais, como Kim Jong-un, Vladimir Putin e Marine Le Pen, além de nomes como Mark Zuckerberg, do Facebook.

Não era um simples ato político, era um artista usando a arte para expressar sua indignação contra as injustiças do mundo, como já fizeram Bob Dylan, Bruce Springsteen, Chico Buarque, mas também Charlie Chaplin, Salvador Dali, Jorge Amado e tantos outros. Os incomodados com o teor apresentado na turnê de Watres não perceberam que não dava para ir a um show desses sem se ater ao aspecto político. Talvez não saibam a que pode servir arte, muito menos que política vai muito além de partidos. Pior, não devem saber nem do que tratava boa parte das músicas do Pink Floyd, em especial as reunidas por Roger Waters para essa turnê, uma declarada crítica ao neo-fascismo.

Antes mesmo dos primeiros acordes soarem, o público já admirava as imagens de altíssima qualidade exibidas no gigantesco telão de 70 metros de largura por 14 de altura. Foram cerca de 20 minutos mostrando apenas uma mulher sentada em frente a uma praia. Era só o prelúdio do deslumbramento que viria a seguir, o céu fica vermelho e a banda ataca de “Speak to Me” e “Breathe”, que abrem o disco Dark Side of The Moon, dando início a sequência de músicas de álbuns clássicos do Pink Floyd e sendo recebidas com enorme vibração pela plateia. Além de faixas do Dark Side… (1973), Waters passeou pelo discos Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979). Apresentou também músicas de seu trabalho mais recente, Is This the Life We Really Want? (2017). Em Salvador, houve ainda uma surpreendente novidade, um bônus histórico que conto mais na frente.

O sistema surround suspenso, com caixas espalhadas por diversos pontos, ampliava ainda mais a sensação de imersão no universo proposto por Waters. O músico inglês enfileirou de forma irretocável obras como “Time”, “Money”, “Welcome to the Machine” e “Wish You Were Here”, tocadas por maestria por uma banda que seguia quase sem mudanças as gravações originais e com as duas backing vocals, Jess Wolfe e Holly Laessig, dando um show a parte. O guitarrista Jonathan Wilson, que lançou um excelente disco esse ano, é quem faz parte das vozes, como um substituto de David Gilmour.

Um dos pontos altos e mais emocionantes do show foi com “Another Brick in the Wall Pt. II”, com crianças do Projeto Axé entrando no palco encapuzadas e com macacões laranja, como sequestrados do Estado Islâmico. O coro infantil ecoou junto com as vozes do estádio o marcante refrão. Ao tirar os macacões e exibir “RESIST!” estampadas em letras garrafais nas camisas, o público ovacionou e respondeu com gritos de “#eleNÃO”. Diferente dos shows anteriores, foram quase unânimes.

O “RESIST!” tomou conta do telão, como deixa para o intervalo, que mais do que um momento para descanso, serviu como recurso para uma sequência de frases, denúncias e posturas políticas ainda mais incisivas. Um clamor pela resistência ao neo-fascismo, anti-semitismo, tortura, forças policiais militarizadas, escravidão, crimes e poluição, fechando com a já polêmica lista de líderes fascistas. Onde em shows anteriores aparecia o nome do candidato à Presidência Jair Bolsonaro, estava estampado a tarja “conteúdo político censurado”, escondendo o nome do político. Já nem precisava, o recado estava dado e os gritos contra ele voltaram com força.

A segunda parte do show, volta com canções menos populares para o público médio, mas não menos arrebatadoras, como “Dogs” e “Pigs”, do álbum “Animals”. Elas ganharam releituras vigorosas, valorizadas ainda mais com o uso dos elementos cênicos numa representação da capa do disco, com as chaminés ganhando corpo por trás do telão e um gigante porco insuflável circulando entre o público, numa associação direta a Trump e estampado com a frase “Seja Humano”.

Durante as três horas, Waters não pede para o público cantar junto, não dirige muitas palavras para plateia. Quase tudo é dito através da música; das performances, como no banquete com ele e os músicos mascarados como porcos, cachorros e ovelhas, ou quando se mostra acorrentado; ou ainda pelas frases e imagens que se alternam no telão, mostrando crianças pobres, miséria, guerras e destruição. Uma concepção visual deslumbrante que se encaixavam perfeitamente com as canções.

Com a voz embargada, lágrimas no rosto e mãos trêmulas, Waters prestou uma linda homenagem a Moa do Catendê, vítima da intolerância política do neofascismo bolsonarista. Enquanto o capoeirista aparecia de braços abertos numa projeção gigante no telão, o músico inglês fazia um discurso emocionado e combativo. “Eu quero apenas ter um momento para relembrar um dos seus. Esse é um grande artista local. Ele foi brutalmente assassinado durante o processo eleitoral e era um grande exemplo para todos nós em espalhar amor, humanidade, empatia e coragem. O futuro Brasil deve ser construído sobre o que ele acreditava, não o que alguns outros acreditam”. Uma deixa para os gritos mais calorosos contra o candidato do PSL.

Visivelmente emocionado, empunhando o violão, o artista inglês anunciou ainda uma música que nunca havia sido tocada ao vivo, nem pelo Pink Floyd. Waters tirou a clássica “Mother”, do The Wall, do repertório, para tocar pela primeira vez na vida “Two suns in the sunset”, do álbum Final Cut (1983), que fala da desunião da raça humana. Não havia nada mais adequado para o momento. “No meu espelho retrovisor/ o sol está baixando/ Afundando atrás das pontes na estrada/ E eu penso em todas as coisas boas/ Que deixamos por fazer/ E eu sofro premonições/ Confirmo suspeitas/ Do holocausto que está chegando// E enquanto o para-brisa derrete/ Minhas lágrimas evaporam/ Deixando apenas brasa à proteger/ Finalmente eu entendi/ Os sentimentos dos poucos/ Cinzas e diamantes/ O inimigo e o amigo/ Éramos todos iguais no final”, diz a letra.

Ainda houve tempo para a reprodução da clássica imagem da capa do álbum The Dark Side Of The Moon, com um jogo de luzes formando o prisma atravessado por luzes coloridas, e a finalização com outro dos hits imbatíveis do Floyd, “Comfortably Numb”. Water e banda deixam o palco com o “RESIST” estourado no telão. Era o último recado. Resistam! Só sendo muito insensível para sair imune daquilo tudo.

Da capital baiana, a turnê seguiu para Belo Horizonte, e em seguida, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre. Antes de Salvador, o cantor havia apresentado seu show em São Paulo e em Brasília.

Repertório:

Speak to Me (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Breathe (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
One of These Days (Pink Floyd – Meddle)
Time (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
The Great Gig in the Sky (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Welcome to the Machine (Pink Floyd – Wish You Were Here)
Déjà Vu (Roger Waters – Is This the Life We Really Want?)
The Last Reugeef (Roger Waters – Is This the Life We Really Want?)
Picture That (Roger Waters – Is This the Life We Really Want?)
Wish You Were Here (Pink Floyd – Wish You Were Here)
The Happiest Days of Our Lives (Pink Floyd – The Wall)
Another Brick in the Wall Part 2 (Pink Floyd – The Wall)
Another Brick in the Wall Part 3 (Pink Floyd – The Wall)
Set 2:
Dogs (Pink Floyd – Animals)
Pigs (Three Different Ones) (Pink Floyd – Animals)
Money (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Us and Them (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Smell the Roses (Roger Waters – Is This the Life We Really Want?)
Brain Damage (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Eclipse (Pink Floyd – Dark Side of the Moon)
Two Suns in the Sunset (Pink Floyd – Final Cut) (Premiere: primeira vez em todos os tempos)
Comfortably Numb (Pink Floyd – The Wall)

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2 Comments

  1. Jil Soares Reply

    Suas observações acerca do trabalho mais recente de RW, fizeram- me sentir no evento. Muito boa a crítica, principalmente por ter usado os dispositivos políticos soerguidos pelo artista, na composição de sua obra.
    Parabéns!

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