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Papo com quem faz: Joilson Santos, colocando Feira na rota

Responsável por um dos mais atuantes coletivos culturais do estado, Joílson Santos tem se revelado um nome fundamental apara a produção musical no interior do estado. Natural de Itaberaba, e residente em Feira de Santana há 15 anos, ele é co-fundador e coordenador do Feira Coletivo Cultural, que realiza shows, eventos e o Feira Noise Festival, o principal do cenário independente no interior do estado atualmente. Atuando politicamente como membro do Fórum Permanente de Cultura de Feira, do Conselho Municipal de Cultura e do Colegiado Setorial de Música da Bahia, Joilson é também músico. Atua como baixista da banda Clube de Patifes e do grupo de metal Erasy. Ele é o entrevistado da vez do giro de entrevistas que o el Cabong está realizando com produtores do universo da música na Bahia. Ele fala da cena musical em Feira, da falta de olhar para o interior, das dificuldades e das realizações que seu coletivo tem realizado.

Veja também:
– Papo com quem faz: Rogério Big Bross, um veterano focado no rock.
 Papo com quem faz:: Lídice Berman, agora em vôo próprio.

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– Como você enxerga a cena musical baiana, tanto no que diz respeito a produção local, quanto a movimentação de shows?

Acho que é uma cena criativa, enfrenta as dificuldades com inteligência, além do mais está é uma cena muito melhor estruturada se comparada com décadas passadas, mais profissional, os artistas tem produzido mais e com qualidade, claro que me refiro a cena independente, que para mim vive em constante evolução. Falando em circulação, acho que ainda há muito pra superar, a Bahia é grande, e pode ser um pólo importante de turnês, mas falta investimento, falta mais atores nas cidades, principalmente nos centros regionais, promovendo shows e ampliando essa circulação, mas temos micro rotas que funcionam muito bem e precisamos pensar em como ampliar essas rotas ou estimular o nascimento de mais micro rotas pelo estado.

“A Bahia é grande, e pode ser um pólo importante de turnês, mas falta investimento, falta mais atores nas cidades, principalmente nos centros regionais, promovendo shows e ampliando essa circulação”

– Qual a maior dificuldade para quem produz shows em Feira de Santana e no interior do estado?

As principais dificuldades são espaços ideais para produção de shows de pequeno e médio porte. Os que existem não tem estrutura o que acaba onerando demais o evento e inviabilizando um número maior de produções. Acho que a maioria das cidades do interior sofrem com isso, com custo maior de logística também. Aqui em Feira temos espaços como o Centro de Cultura Amélio Amorim, um espaço legal para shows de médio porte, mas, além da burocracia para se trabalhar, é um espaço sucateado, não tem a manutenção necessária e isso também onera muito na hora de produzir um evento. Acabamos tendo que investir muito em estrutura, segurança, para um evento ser realizado lá. A gente precisava no Amélio Amorim de um programa como o que rola no Pelourinho, que o estado entra bancando som e luz. Se tivéssemos algo parecido aqui, existiriam bem mais eventos na cidade, e o centro seria muito melhor utilizado.

– Como você tem visto o papel do poder público e da iniciativa privada no apoio a este cenário mais independente?

O apoio do setor público e privado é tímido ainda, o estado tem promovido algumas políticas públicas que visa investir na produção, principalmente independente, mas é um formato ainda cheio de falhas, tem sido importante e tem movimentado, mas a maioria não produz, ou realiza um projeto se não tiver um edital dando suporte, isso é ruim, pq ainda se investe muito pouco em cultura na Bahia e viver com suas ideias e projetos submetidas a uma curadoria que as vezes não entende a proposta ou entende cultura de outro jeito é sempre muito ruim e acaba empacando mais do que impulsionando os trabalhos. O apoio do setor privado é quase inexistente, quando aparece está vinculado a algum edital público, de dedução de imposto, então nem dá pra falar em investimento privado

– Você acha que existe público diverso para todos estilos musicais em Feira de Santana?

Sim, sem dúvida! E a internet tem sido fundamental na formação desse público. Desde que começamos a trabalhar com shows, em 2006, realizando um ou outro evento começamos a perceber o potencial de público na cidade para diversos estilos. E a gente sabe que o público se forma e se amplia a partir do acesso, então na medida em que outros estilos vão ganhando espaço o público vai aumentando.

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Tássia Reis em Feira de Santana, uma das surpresas destacadas por Joílson.

– Qual foi a grande surpresa entre os shows que você produziu, de público e artisticamente?

Vivo me surpreendendo nesse trabalho, acho que é por isso que gosto tanto de trabalhar com produção. A lista de boas surpresas é grande, certa feita realizamos um show de Diamba com Baiana System, creio que em 2013, em parceria com Lídice Berman, fechamos a produção numa terça-feira e o show era no sábado. Divulgamos por três dias nas redes sociais, e no sábado estávamos com a Arena do Amélio Amorim completamente lotada. Algo fora do comum! O Festival (Feira Noise) é sempre o espaço onde mais a gente vê artistas no palco sendo incríveis, as vezes um nome pouco conhecido do público como Tássia Reis ano passado fazendo um show poderoso, ou a Hillbilly Rawhide e Canastra em 2012,  fazendo shows inesquecíveis. O Far From Alaska, em 2015. Ou caso mais recente o show de Emicida que realizamos no início do mês, coisa incrível e que renova nossa vontade de continuar trabalhando com música independente.

– Com quem você não trabalhou que gostaria de trabalhar? E que show gostaria de fazer e não fez ainda?

O Feira Coletivo é focado na música independente, então não temos pretensões de realizar megashows e algo do tipo que não esteja ligado a esse cenário. Queremos seguir produzindo artistas deste mercado e nesse sentido ainda temos um monte de desafios. Feira de Santana apesar de ser uma metrópole ainda tem que avançar muito no que diz respeito a este circuito de shows, então existe uma lista imensa de artistas que adoraríamos produzir aqui mas que infelizmente ainda não foi possível realizar. Criolo, Di Melo, Tulipa Ruiz, Nação Zumbi, BNegão e os Seletores da Frequência, Black Alien, entre outros, a lista é grande, somos um coletivo e todos que trabalham no grupo e que tornam possível as nossas atividades tem nomes à acrescentar a esta lista.

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– Quais os próximos projetos e o que vislumbra de produção na área de música mais pra frente? Daqui a 3, 5 10 anos pra você?

São muitos desafios para se trabalhar com música independente na Bahia. Queremos seguir consolidando Feira de Santana como polo desse mercado não só recebendo artistas de diversas partes do Brasil, mas também exportando nossos artistas para outros estados e países. Acreditamos muito no potencial de nossa cidade e sabemos que o Feira Noise é uma grande ferramenta para essa consolidação. O festival já é uma referência no Brasil mas pode crescer muito ainda e queremos seguir aprimorando o modelo, ampliando as ações e ocupando cada vez mais a cidade e a região com as atividades do Festival. Além dos eventos, auxiliar a Bahia na organização de rotas para turnês, conectar mais municípios, levar nossa experiência com produção para outras cidades do interior é também o caminho para fortalecimento do mercado que estamos inseridos.

– Você pensa em trabalhar com shows internacionais? Por que não fez ainda?

Já trabalhamos com alguns artistas internacionais nos últimos anos como os grupos vindos da Argentina, Las Taradas e o trio Falsos Conejos, os finlandeses Blue in the face e Ozzmond e o violonista britânico Jon Gomm. Surgindo oportunidades iremos realizar mais shows ou incluir na grade de nosso festival também.

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