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Os sucessos do Carnaval baiano que são versões e você nem sabia (pt 2)

Sabia que alguns dos sucessos do Carnaval baiano são versões de músicas caribenhas, da América Latina e até música medieval espanhola? Em 2015, fizemos uma ‘matéria’, que rendeu bastante, apontando sucessos do Carnaval baiano que são versões e você nem sabia. Entre elas estavam clássicos conhecidos de Gerônimo, Ivete Sangalo e Timbalada, por exemplo. Mas não acabava ali, descobrimos outras músicas bem conhecidas do Carnaval que também não são originais, a versão famosa na festa tem origem diversas e mergulhamos nessa brincadeira de desvendar a origem desses sucessos.

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CONHEÇA AS VERSÕES:

Bem no início do século o Axé ainda vivia seus tempos áureos de sucesso popular e uma banda se tornou conhecida com um daqueles hits bombásticos que todo mundo canta. Era o Bragaboys que surgia com “A Bomba”, explosão no verão de 2000 e daquelas músicas que ganharam até coreografia própria. Em 2001, foi das músicas mais tocadas no país, chegando a ser sucesso até em Portugal. Graças ao sucesso da faixa, o primeiro disco da banda ultrapassou a marca das 80 mil cópias vendidas. “A Bomba”, porém, é uma versão da música “La Bomba”, que já tinha sido hit na América Latina e na Europa com o grupo boliviano Azul Azul. Além do Bragaboys, uma banda argentina chamada King Africa também gravou a música em 2000, emplacando de forma ainda mais arrasadora na Europa. Por lá foi o hit do verão, o single mais vendido e melhor faixa nas rádios. Entrou nas paradas de vários países europeus, como França, Itália, e Holanda, conquistou disco de ouro na Espanha, Portugal e Bélgica e fez a banda rodar pelo continente com uma turnê de 150 shows. A música também foi regravada pela banda Dominó no seu idioma original no álbum de 2001, mas não repetiu o êxito das outras gravações.

A versão:
A Bomba – Bragaboys

A original:
La Bomba – Azul Azul

Carlinhos Brown é um gênio, criou diversos sucessos imortalizados no Carnaval de Salvador, alguns deles entre as melhores músicas da festa nos últimos 30 anos. Porém, ele leva consigo também a pecha de tomar pra si a criação de ouros artistas. Como “Quixabeira”, que, na verdade, é uma colagem que Brown fez de três músicas gravadas originalmente como de domínio público de artistas do sertão da Bahia. Uma delas é a chula de Manezin de Izaías, as outras permaneceram sem autor conhecido. Uma outra música, “Ashansú”, que vivou um um grande hit de Brown, na verdade é uma versão dele para uma música gravada originalmente pelo grupo vocal Os Tincoãs. No segundo disco do grupo, lançado em 1973, várias da composições eram interpretações da essência religiosa afro, canções baseadas em cânticos do Candomblé. Uma delas era “Obaluaê”, uma adaptação de Mateus Aleluia, Dadinho e Heraldo, para um cântico em homenagem ao Orixá de mesmo nome, mas também conhecido como Omolu. É o responsável pela terra, pelo fogo e pela morte, ou como o orixá da medicina, da cura, da transformação. É o mais temido dentre todos os orixás. A versão de Brown, rebatizada como “Ashansú”, aparece no disco “O Milagre do Candeal”, de 2004, trilha sonora de filme de mesmo nome do diretor espanhol Fernando Trueba. A faixa aparece creditada como adaptação de Carlinhos Brown e Mateus e tem participação ainda da Timbalada. Brown definiu certa vez “Ashansú” como uma das qualidades do orixá Omolu ou Obaluaê.

A versão:
Ashansu – Carlinhos Brown

A original:
Obaluaê – Os Tincoãs

Outro sucesso de autoria de Brown, que também é uma versão é “Cadê Dalila”, desta vez gravada por Ivete Sangalo. A canção, que tem parceria de Brown com o Alain Tavares, foi lançada nas rádios em dezembro de 2009 e se tornou um enorme sucesso no verão baiano e no Carnaval. Na época, foi distribuído cerca de um milhão no formato CD single. Em poucas semanas, a música atinge o topo das mais tocadas em todo o país, permanecendo no primeiro posto por 4 semanas. “Cadê Dalila” foi eleita ainda a música do carnaval 2009 por dois dos principais prêmios da festa soteropolitana: O Bahia Folia e o Dodô e Osmar. Ela só foi lançada em disco, um pouco depois, ainda em 2009, no sexto álbum de estúdio de Ivete, ‘Pode Entrar: Multishow Registro’. A música tinha  uma curiosidade, misturava ritmos percussivos árabes e baianos, algo não tão comum nos hits carnavalescos baianos. Mas  mais curioso ainda é a origem melódica da música. Em outro ritmo, comum arranjo totalmente diferente, mas com a mesma melodia de uma música medieval espanhola, que nem a autoria conseguimos identificar. E ai, acha que é inspiração, coincidência, versão ou cópia?

A versão:
Ivete Sangalo – Cadê Dalila

A original:
Música medieval espanhola

Luiz Caldas já havia emplacado diversos sucessos e se tornado um dos maiores nomes da música baiana quando lançou em 1989 o disco ‘Timbres’. Uma das faixas de maior sucesso daquele disco foi “Mademoiselle”, que trazia o tempero dos ritmos caribenhos em sua base, como tantos outros sucesso do carnaval baiano daquele período. A música ainda hoje é uma daquelas obrigatórias nos shows do cantor e em suas apresentações em trios elétricos durante a festa. Mal sabem vocês, e quase todo mundo, que a música na verdade tem origem nos anos 70 e num pequeno país do Caribe, Guadalupe. Mas nem é tão difícil perceber. No disco de Luiz a música aparece como “Mademoiselle (O La Ou Té Yé)” e com o crédito da composição para J. P. Feury, e adaptação para o português brasileiro por Luiz Caldas. “O La Ou Té Yé” é o nome original da música, composta por Jean Pierre Fevry, integrante do grupo Selecta De Ste Rose Guadeloupe , que gravou a faixa em seu primeiro disco‎, em 1977. No Brasil, a música integrou uma daquelas coletâneas ‘Lambadas Internacionais’, lançadas pela gravadora Gravasom, de Belém, e que marcaram os anos 80 no Brasil. Nesse caso, a música fez parte do volume 2 da série de coletâneas, o que fez mais sucesso, pelo menos na Bahia, e que tinha outros hits, entre eles, o clássico “Cuisse La”, vulgo “Ti pi ti pi ti”. Aliás, várias músicas dessas coletâneas poderiam entrar nessa lista. “Isso é Bom” versão de Ademar Andrade (Banda Furta Cor) e Bairro Pacheco para a própria “Cuisse La”, gravada pela banda Avatar, por exemplo.

A versão:
Mademoiselle – Luiz Caldas

A original:
O la Ou Té Yé – Selecta de Ste Rose

A maioria não deve nem lembrar, mas “Vendaval” da banda Cheiro de Amor foi um sucesso na época de seu lançamento no início dos anos 90. Esquecida com o tempo, a música não permaneceu entre aqueles hits antigos tocados até hoje, mas foi um dos singles do disco ‘Suingue’ de 1990, ao lado de de “Rebentão” e “Vem Ser a Paixão”. Ainda com Márcia Freire, a banda na época era uma das principais do Carnaval baiano. Na verdade, “Vendaval” é uma versão adaptada por Marinho para “El Humahuaqueño (Carnavalito)”, de Edmundo Porteño Zaldívar. Ele foi um guitarrista e compositor argentino, que tem “El Humahuaqueño (Carnavalito)” como sua grande obra. A música foi criada em 1941, gravada com oboé, fagote e vibrafone e lançada selo Pampa. Foi um sucesso imediato, alcançando em muito pouco tempo cerca de cinquenta versões de diferentes intérpretes na Argentina. Quem ajudou a difundi-la fora foi o dançarino Joaquín Pérez Fernández, que no início dos anos 50 fez várias turnês com seus típicos shows de dança na América e na Europa. A música acabou sendo sucesso em muitos países, sendo gravada em praticamente todo o mundo, incluindo Egito, China, Japão, Grécia, Nova Zelândia, Holanda ou Bélgica. O maior sucesso foi na França, onde ganhou mais de duzentas versões diferentes, e na Alemanha, onde ficou conhecida como “Blumenfest no Peru” e ganhou, pelo menos, cem versões. Nos Estados Unidos, a música chegou às primeiras posições de popularidade, por meio de uma versão muito particular gravada pela cantora pop Georgia Gibbs, com o título de “Kiss me another”. Estima-se que atualmente existam mais de 1.400 versões de “El Humahuaqueño (Carnavalito)”, com tradução para mais de 70 idiomas. Segundo consta, é a música argentina mais difundida no mundo.

A versão:
Vendaval – Cheiro de Amor

A original:
El Humahuaqueño (Carnavalito) – Edmundo Porteño Zaldívar

Aqui não é bem uma versão, mas o refrão que é uma homenagem a um hit dos anos 70. Sucesso nos anos 90, “Dia dos Namorados”, composição de Tonho Matéria e Durval Lelys, é um dos maiores hits da carreira do Asa de Águia. No disco ‘Cocobambu’, de 1993 a banda até juntou as duas faixas colocando a inspiração como música incidental. Pode ter sido inicialmente uma coincidência, um acaso, ou o inconsciente, ou mesmo uma homenagem proposital, mas que “Dia dos Namorados” tem muito de “Rock and roll lullaby” não dá pra negar. Composta por Barry Mann/Cynthia Weil e gravado por de B.J.  Thomas, a música foi um hiper sucesso nos anos 70. Chegou ao número 15 na Billboard Hot 100 em 1972, ano de lançamento. No Brasil, a música foi um sucesso muito devido inclusão como tema de amor na novela ‘Selva de Pedra’.

A versão:
Dia dos namorados – Asa de Águia

A original:
Rock And Roll Lullaby – B.J.Thomas

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2 Comentários

  1. Roberto Kuelho Reply

    Excelente matéria, no meu caso foi o inverso. Fizeram versão de uma composição minha.

    O King África, o cantor argentino que você citou aqui nesta matéria, fez uma versão de Na Manteiga (gravada pelo Terra Samba) que virou “La Manteca”. Ela saiu no CD em dois estilos, pop argentino e reggaeton. Fez grande sucesso.

  2. Pingback: O Carnaval da Orkestra Rumpilezz em show marcante no Pelourinho » Para quem gosta de música sem preconceitos

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