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Banzeiro, o novo feitiço de Dona Onete

Destaque no Festival Radioca, onde se apresenta depois de turnês pela Europa e América do Norte, Dona Onete fala no el Cabong sobre a carreira e seu segundo álbum, ‘Banzeiro’.

Por Kamille Viola

Aos 77 anos, a paraense Dona Onete está um tanto atordoada com os compromissos de lançamento de seu novo disco, ‘Banzeiro’. Nem bem chegou da Europa e já está dando entrevistas para o shows que anda fazendo pelo Brasil. Em Salvador, ela se apresenta no dia 4 de dezembro, dentro da programação do Festival Radioca, no Trapiche Baranbé (Comércio). A correria das turnês ainda tem um ar de novidade, já que, apesar de compor e cantar há muitos anos, foi apenas há quatro, em 2012, que ela surgiu para o Brasil, com o CD ‘Feitiço caboclo’, sua estreia solo.

“Estou fazendo muitos shows, muita coisa”, comenta Dona Onete. “Nunca imaginei que agora, aos 77 anos, estaria assim. Eu poderia imaginar tendo uma carreira como compositora, porque tenho muitas músicas, não tenho parcerias. Mas minha carreira está indo de forma metórica, pela raia 5. E olha que ainda nem passei pela Globo, TV, nada disso”, comemora ela, que na Europa deu entrevista à BBC e em setembro realizou shows na América do Norte.

Antes de abraçar seu lado cantora como profissão, Ionete Gama foi professora. Nascida em Cachoeira do Arari, no Pará, se mudou para Belém ainda criança com a avó, depois da morte de sua mãe. Casou-se muito jovem, aos 18 anos, e se mudou para Igarapé-Miri, onde foi professora de história, secretária de cultura e fundou grupos de dança e música regionais. Depois de 25 anos de um relacionamento abusivo, a mãe de dois filhos se separou e se engajou na militância pela CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Foi uma viagem política, aliás, que inspirou uma das faixas do novo álbum, “Proposta indecente”, que Dona Onete já tinha registrado no disco de estreia da conterrânea Aíla, em dueto. “Foi um período muito bonito da minha vida. Eu era daquelas que subiam no palanque. Uma vez, em São Paulo, tinha um rapaz carioca que era presidente do sindicato dos rodoviários que se interessou por mim. Meus amigos ficaram enciumados, todo mundo queria me proteger. Então eu inventei um jogo com números de 1 a 25, quem ganhasse ia passar o inverno comigo, como na música. Todo mundo se inscreveu (risos). Uma pessoa disse: ‘Professora Onete, essa proposta é indecente’”, lembra ela. O tal admirador chegou a convidá-la para vir ao Rio de Janeiro, mas a musa voltou para Igarapé-Miri.

“Já me falaram que eu pare com isso [de cantar os costumes do Pará], mas eu não paro. É gente que não entende o que eu estou fazendo.”

Com produção musical do ‘guitar hero’ Pio Lobato, ‘Banzeiro’ passeia pelo carimbó, banguê e bolero em suas doze faixas, todas de autoria da artista. Rainha do Carimbó Chamegado, que tem letras com amor e erotismo, Dona Onete segue cantando no disco novo também o amor por sua terra, em canções como “Pitiú” (que ganhou o primeiro clipe do disco – veja abaixo), gíria para o cheiro de peixe característico que se sente no Pará, a faixa-título (banzeiro são as ondas provocadas pelo movimento das embarcações nos rios) e “Queimoso e tremoso”. “É a mistura da flor do jambu e a pimenta de cheiro. Daí veja o molho que deu, um suingado que é a loucura do povo do Pará. Ninguém mais sabe dançar do jeito do paraense, é o quadril, a gente dança no requebrado do umbigo”, derrete-se ela. “Já me falaram que eu pare com isso [de cantar os costumes do Pará], viu, amor? Mas eu não paro. É gente que não entende o que eu estou fazendo.”

Felizmente, muita gente entende. Como a conterrânea Fafá de Belém, que gravou “Pedra sem valor”, de Dona Onete, no álbum que lançou no ano passado, ‘Do tamanho certo para meu sorriso’. “Fiquei muito feliz, achei que ela cantou com muito amor a música”, comemora, lembrando-se de outra admiradora famosa. “Quem foi fazer coreografia para mim foi a Deborah Colker. Fez a coreografia todinha do meu show! Ela dançava em cima do palco comigo. Ela diz que me adora, que é minha fã. Eu é que sou fã dela! Uma mulher daquelas, acostumada a ver coisas lindas, viajada… Fico muito feliz.”

À voz rouquinha interpretando letras românticas e maliciosas com tempero nortista e latino somam-se os trejeitos manhosos no palco: é a receita para fazer os fãs se derreterem de vez. Conhecedora dos saberes das ervas de sua terra, encantadora de botos, pororoca de ritmos nos palcos mundo afora, Dona Onete sabe como ninguém enfeitiçar plateias. “O pessoal adora aquele jogo do meu ombro, o jeitinho que eu faço, o jeito chamegado, chamegando com meu público”, ela diz, antes de gargalhar mais uma vez.

Ouça ‘Banzeiro’:

Kamille Viola é jornalista, carioca e adora a música e a comida do Pará. Tem orgulho de ter entrevistado meio mundo da cena de Belém e de ter provado a Jamburana de Dona Onete na casa da própria. E-mail: kamille.viola@revistavertigem.com

Foto: Dona Onete clicada por Laís Teixeira

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