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Entrevista: veterano no rock baiano, Artur Ribeiro fala de sua estreia solo

Quem acompanha o rock baiano dos últimos 40 anos, conhece (ou deveria conhecer) Artur Ribeiro. O cantor e compositor esteve em algumas das bandas mais importantes e relevantes da produção roqueira da Bahia. Nos anos 1980, integrou a Elite Marginal, fazendo parte da banda entre 1990 e 1992, depois esteve na Treblinka, em sua fase mais marcante, gravando o clássico disco ‘Indução Hipnótica’. Na sequência fez parte ainda da Cravo Negro e mais recentemente da Theatro de Seraphin. Agora, Artur foca em sua carreira solo com seu primeiro álbum solitário. Em ‘Alma da Madrugada’, o cantor e compositor trata de sentimentos profundos, trafegando por dores e amores, num mergulho pelas “saliências das nossas almas carregadas de rum”, como diz na divulgação do trabalho. Para o el Cabong, Artur Ribeiro fala sobre a concepção deste disco, seu trabalho com novas tecnologias, a trajetória pelo rock baiano (e paulista), além da própria ideia de trabalhar com o formato álbum em tempos de singles descartáveis.

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Artur Ribeiro

Quem: Artur Ribeiro
O Que: Disco ‘Alma da Madrugada’
Formato: Digital (por enquanto)
Onde: plataformas digitais (Bandcamp, Spotify e Deezer)
Por quem: Independente
Preço: Audição gratuita

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– Gostaria que vocês contassem como foi a concepção do disco. Há um conceito nele?

Artur Ribeiro – Ah, eu sempre sonhei em conseguir desenvolver um trabalho novo baseado em um conceito. Em ‘Alma da Madrugada’, me inspirava o fato de estar liberto dos compromissos com banda, quando, por mais prazerosos que sejam, sempre nos prendem democraticamente às ideias do grupo. Então, uma vez com a liberdade em mãos, minha meta era trazer músicas soltas, sem direcionamentos estéticos rígidos e, ao mesmo tempo, pontuar um conceito musical diferente para mim. Trabalhei flertando com arranjos eletrônicos e sintetizadores, baterias programadas. Aboli o contrabaixo em algumas canções, outras fiz quase à capela. Gravei as guitarras me aventurando em alguns solos. Todo o processo levou alguns meses, mas foi uma grande descoberta para mim ser dono do destino das canções. Nesse período, passei por diversas dificuldades emocionais e isso se reflete no trabalho. O conceito foi trazer à tona uma atmosfera noturna, madrugada mesmo, canções para se ouvir na noite profunda.

– Como foi o processo de composição, produção e gravação do álbum?

Artur Ribeiro – Eu descobri com amigos programas eficientes de gravação e montei um pequeno home estúdio. Comprei algum equipamento e comecei a experimentar o processo de registrar com mínima qualidade o que eu escrevia. Sou um compositor compulsivo. Toda ideia vira música para mim, faço de três a cinco canções por mês. No início, logo após o fim da Theatro de Seraphin, dei início ao processo de resgatar algumas ideias musicais e compor canções específicas para o álbum. Fiz mais de trinta músicas. Aproveitei 10 canções nesse CD. Com o decorrer do trabalho, as dificuldades foram sendo superadas.

– Quais foram as principais influências durante esse processo de criação?

Artur Ribeiro – Minhas influências básicas estão nos anos 80 e 90. Não fugi de minhas raízes. Mas sou antenado em todo movimento musical atual e tenho aqueles artistas de estimação, aqueles que sempre serão referência em minhas canções. Gosto de tudo um pouco e vinha ouvindo muito canções com viés country com pegada campal, ao estilo Neil Young, Wilco, coisas assim. Atualmente, ouço muito Reina del Cid, que recria algumas covers, GoGo Penguin, jazz experimental, Rita Payes, Joan Chamorro, Andrea Motis, basicamente jazz e sons nessa linha.

– Em tempos sem ficha técnica disponível, o disco contou com quem na produção, arranjos, ou mesmo em participações?

Artur Ribeiro – Tive apoio em algumas faixas de Ed Soares na guitarra e Marcos Colla no contrabaixo e nas dicas de como usar o programa. Nesse trabalho usei o Reaper, uma Dawn de fácil manuseio e muito eficiente. Eu mesmo fui o produtor e fiz a direção musical. Esse trabalho é 100% autoral.

– Como ele está sendo lançado e como encontrá-lo?

Artur Ribeiro – Ele foi lançado em todas as plataformas digitais e pode ser ouvido/baixado em brechodiscos.bandcamp.com/album/alma-da-madrugada

– Gostaria que fizesse uma análise da sua evolução musical desde o início da carreira até este disco.

Artur RibeiroArtur Ribeiro – Eu comecei nos anos 70. Estudando saxofone. Tempos depois, fui morar em Londrina e lá passei a estudar piano. De volta a São Paulo, dois anos depois, comecei os estudos de violão clássico. Acompanhei de perto todo o movimento musical punk que começou em São Paulo. Era amigo dos caras do Olho Seco, da qual fazia parte meu cunhado na época. Não tive bandas nesse período, voltei aos estudos acadêmicos e me distanciei da música, só retornando anos mais tarde, quando passei a morar em Salvador e montei minha primeira banda aqui, a Elite Marginal. Sempre fui amante de todo tipo de música e creio ter um bom discernimento para saber o que é bacana e o que não é. Sempre estudei música, nunca parei. Ao contrário de alguns músicos, tenho amor a partituras e aos estudos que fazem parte dela. Acabei de ganhar um livro e estou devorando ele aos poucos: Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade, pesquisa feita por ele ao longo da vida e publicado em 1989, pela Universidade de São Paulo. Estive presente na cena rock da Bahia desde o começo e minha influência vem de toda bagagem adquirida ao longo de 40 anos acompanhando o que acontece no cenário mundial. Tive o privilégio de já ter tocado com meus ídolos, entre eles Tom Zé; por 5 ou 6 vezes, abri seus shows em São Paulo, em carreira solo. Também abri para Raul Seixas, Ira, Capital Inicial, Ratos de Porão e muitas outras bandas, com as bandas que tive por aqui. Em Salvador, além da Elite Marginal, fiz parte da melhor fase do Treblinka, fui do Cravo Negro e minha última banda aqui foi a Theatro de Seraphin. Ao término dos trabalhos com a TdS, depois de 15 anos, comecei a dedicar-me a essa curta carreira solo. Me encanta o fato de poder fazer tudo em casa! Até show pode ser feito via web!

– Porque em tempos de streaming ainda lançar um álbum?

Artur Ribeiro –Bom, exatamente por isso! Muito mais fácil lançar um álbum não físico! Deixar ele na rede para ser ouvido/baixado! A era do álbum físico está dormente! Agora a gente baixa via web e, se quiser, produz o próprio CD físico em casa!

– Quais os planos para tornar este trabalho mais visível diante de tanta coisa sendo produzida?

Artur Ribeiro – ‘Alma da Madrugada’ foi uma necessidade poética. Eu precisava fazer, eu tinha que lançar! Três ou quatro músicas ali são muito importantes para mim, definem minha estética, meus conceitos musicais. Eu gosto de misturar influências, que são muitas, mas tenho uma linha reta na escolha dos limites. A música vai flutuar sempre nesses limites, onde eu gosto de transitar. O plano é usar esse lançamento como uma pequena e modesta apresentação do que vem pela frente. Estou produzindo meu novo trabalho, para ser lançado em dezembro. Um CD mais cheio de influências, mais eletro, mais raiz mesmo. Estou contando com a parceria sempre inestimável de meu brother Ordep Lemos, que vai assinar a produção. Eu faço as gravações básicas aqui e mando pra ele em São Paulo. Lá ele complementa os arranjos e às vezes até cria arranjos inteiros, trazendo enorme qualidade ao formato sonoro! Agora, com essa direção musical de Ordep, creio ser possível apresentar um trabalho evoluído, bem construído, forte. Mas isso é algo que só o tempo vai dizer.

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