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Entrevista Ronei Jorge: um falso romântico se reconstruindo

Desde os anos 90, Ronei Jorge é importante figura do cenário musical baiano. Suas bandas Mutter Marie, Saci Tric e Ladões de Bicicleta traziam, cada uma de sua forma, o rock à frente transmutando a velha e surrada MPB, ou vice versa. Com o fim da Ladrões, onde já assinava com seu nome à frente, deu início a novos projetos em busca de outros caminhos. Inseriu elementos eletrônicos e experimentais ao seu rico cancioneiro, fez trilhas sonoras e passou a trafegar por outros ambientes. Até demorou para ele encarar uma carreira solo. Com seu mais recente disco, ‘Entrevista’, ele assume de vez seu papel como cantor, compositor e definidor de sua própria trajetória. Evidente que, como é característica de sua personalidade, se cercou de pessoas para dividir as certezas, angústias, dúvidas e inquietações. Montou um time de primeira e deu um novo ar a sua obra. Agora como Ronei Jorge se reinventa, mantendo o poder de suas canções, mas não se acomodando em um universo musical estabelecido. Se mexeu e enveredou por novos caminhos e desafios. Se reconstruiu soando mais amplo. Ele recebeu o el Cabong em seu apartamento para falar da carreira, das transformações, das inquietudes, do mercado e de música, claro, que é o que move um dos artistas mais influentes da atual geração do pop e rock baiano.

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– Depois do fim da Ladrões de Bicicleta, Você passou um tempo parado, chegou a ter dúvida de que rumo tomar. Como foi essa decisão de começar uma carreira solo de fato?

A Ladrões terminou por que já tinha dez anos. A gente até falou que parou, por que como a gente tem uma relação de amizade muito forte e um entendimento musical também muito bom, então a gente não ia dizer que acabou por causa disso. Até por que as relação se mantêm até artisticamente. Mas o que acontece é que, quando a gente parou, eu imediatamente tentei fazer um trabalho solo. Eu, Luciano Simas, Felipe Dieder, que toca com a Maglore, e Ângelo Santiago. Era um trio muito legal, muito bom mesmo. Mas eu acho que eu não tinha ainda o formato na minha cabeça, eu não tinha uma forma concebida. Acho que eu ainda tava muito com a Ladrões comigo. Cheguei a fazer cinco shows, depois João Meireles entrou, chegou a ficar duas guitarras, ele e Luciano. As próprias canções mesmo não estavam tão maduras. Depois disso, eu tava com muita demanda de trilha, fui fazendo as trilhas, e isso é parte do trabalho de compositor. Então não me sentia fora nesse sentido. Tava fora de fazer shows, por consequência, do público também. Não tava fora do trabalho. Continuei trabalhando

– E essa coisa de assumir uma carreira solo?

Eu sempre achei que tudo se dava muito bem na coletividade. Apesar de eu sempre compor muito sozinho, em grande parte das bandas sempre foi assim. Na Saci Tric, eu ainda tinha uma coisa de cantar em cima das bases dos músicos, ai a gente tinha uma parceria. Mas depois disso, a partir da Ladrões, eu já compunha muito sozinho, com algumas exceções, duas músicas que eu fiz com Edinho (Edson Rosa – guitarrista da Ladrões de Bicicleta), mas muita coisa sozinho. Muitos amigos falavam para fazer um trabalho solo. Depois do Tropical Selvagem, que foi um trabalho completamente diferente de tudo que já fiz, com João Meireles e Lia Cunha, eu achei que estava na hora de eu mesmo começar a entender como seria esteticamente um trabalho solo, tomar algumas resoluções, definir que caminho estético seguir, reunir algumas canções e começar a pensar que músicos eu queira nesse trabalho. Porque tem uma coisa interessante, Pedrão basicamente fez a banda Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta. Chamei Pedrão, mas foi ele que chamou Edinho e Serginho (Sérgio Kopinski – baixista da Ladrões de Bicicleta) . Então tem muito deles ali. Não que nessa formação atual não tenha muito dos músicos, eles têm participação intensa. Mas eu comecei, eu fui o ponto de partida, da elaboração, fui escolhendo os músicos.

– Além dessa diferença, que mais você percebe em relação a Ladrões?

Tem isso, a decisão final acaba sendo minha, por mais que isso seja uma coisa muito relativa. Vai parecer um papo meio filosófico, mas quando eu não decido eu também estou decidindo também. Quando eu digo assim: “eu vou deixar a coisa correr solta”, é um método também. Mas eu acho que essa escolha da formação, isso pra mim tem uma diferença muito grande. Porque eu já tava pensando nessa coisa das vozes femininas, isso foi um ponto de partida também. Eu estava com desejo, eu via pelas músicas que já existia uma coisa natural de caminhar pra música brasileira e eu queria também que isso estivesse nos arranjos. Então, eu tenho Ian (Cardoso) que é um guitarrista da Pirombeira, que faz música brasileira instrumental, tinha a ver; Carla (Suzart), que é baixista que já tocou em várias formações, que eu vi no Tropical Selvagem fazendo participação e eu vi que tinha total coesão com essa ideia minha, além de ter essa coisa da voz feminina, ela canta também. Aí eu chamei Lívia (Nery) por uma questão de achar ela uma artista incrível, pela nossa aproximação também. Lívia saiu e aí imediatamente pensei em Aline (Falcão), que é também do Pirombeira, que canta muito bem e é uma super instrumentista. Por si só essa galera já dá outra linguagem, mesmo que eu não determine isso, a leitura que eles fazem é diferente. Então é assim, não só sou eu que mudo desse tempo da Ladrões pra cá, passando por várias experiências diferentes, porque todas as experiências acabam agregando, o Tropical, as trilhas, tudo isso desemboca na composição, mas também os músicos, com certeza. A influência deles é fortíssima.

“Não só sou eu que mudo desse tempo da Ladrões pra cá, passando por várias experiências diferentes, porque todas as experiências acabam agregando, o Tropical, as trilhas, tudo isso desemboca na composição, mas também os músicos, com certeza. A influência deles é fortíssima.”

– E como foi a concepção do disco? Como você chegou àquele resultado? Quais foram as influências, que referências você utilizou?

Eu tava muito ligado nessa coisa das vozes femininas. Tanto que eu tinha feito um projeto anteriormente com Edinho (Edson Rosa) e tinha já duas cantoras, Lia Lordelo e Livinha (Livia Nery), e eu acho que isso também foi um ponto de partida. Eu comecei a pensar muito nisso, foi uma cachaça, comecei a ouvir muito esses discos que tinham isso. Engraçado que são coisas completamente diferentes, mas que unem por essa coisa dos vocais. Tava ouvindo bastante Itamar (Assumpção), Arrigo (Barnabé), Banda Nova de Tom Jobim. Chico (Buarque) tem isso, Tom Zé, enfim, na música brasileira tem isso, é recorrente, os coros. Na verdade, na música popular americana você vê muito isso também, claro que cada um de uma forma diferente. Nos sambas, você vê o coro presente. Cada artista trabalha esses vocais, esse jogo vocal, de uma forma totalmente diferente. E eu acho que, nesse trabalho, esses jogos vocais, em cada faixa, se comportam de uma forma diferente. Uns se comportam de uma forma mais cênica. Outros se comportam mais como se fosse uma reiteração do que eu estou cantando, com outro espectro, com as vozes femininas com outro tipo de interpretação. Então eu comecei desse tipo de pensamento. Aí eu estava com algumas canções, eu tinha canção do Tropical que gostava muito, mas que tinha um arranjo muito particular de João (Meirelles), com eletrônica e tal. Então eu achava que a canção podia migrar para outro tipo de trabalho, um pouco mais orgânico, com banda tocando. Então trouxe algumas canções. Tinham outras que eu já tinha feito e que tinham uma influência muito grande dessa música brasileira dos anos 70, que eu coloco meio como se fosse uma coisa só e claro que não é. Mas o que que acontece? Em meados dos anos 70, você tem ali uma música pós-tropicalista, você tem a música brasileira, o olhar para música estrangeira, mas não tem aquela coisa anárquica que tinha o Tropicalismo. Você pega isso no Clube da Esquina, no Secos e Molhados, vai ter isso até nos discos dos Tropicalistas. Caetano (Veloso) e (Gilberto) Gil, se você pegar mais eles nessa fase, já têm outro tipo de comportamento ali. Então isso me atraiu bastante.

– Até por que, você sempre teve uma influência forte dessa época da turma dos malditos, não é?

É, sempre foi uma coisa que eu gostei muito. Mas eu acho que essa relação que as pessoas fazem, às vezes, é porque, principalmente na Saci Tric, rolava muitas versões deles. A gente fez (Jorge) Mautner, Walter Franco. Esses artistas sempre estiveram no meu radar. Mas eu ouvi também muita coisa que não fez tanto sucesso de crítica. Eu reouvi Beto Guedes, por exemplo, que é um super compositor, grande músico e que, na minha geração, acho que ele foi meio desprezado, meio visto como um sub-Clube da Esquina. E ele fez parte do Clube da Esquina intensamente. Lô Borges também era um cara meio esquecido. Eu tava ouvindo. Tem um disco que tem Toninho Horta, tem Beto Guedes, Novelli, Tavito. Então eu fiquei ouvindo bastante esses caras dos anos 70 meio periféricos, mas que tinha uma sonoridade maravilhosa, bem melodiosa.

– Você fala disso, de uma geração que perdeu a coisa anárquica do Tropicalismo, e dá para notar que seu som perdeu muito do rock, que você sempre teve. Como você vê essa coisa do rock em seu trabalho?

Não é sempre, mas a gente costuma visualizar a anarquia do rock muito pela postura, como o comportamento do instrumento, da voz, de ser uma coisa muito ligada à questão comportamental, a emergência da juventude, tem uma coisa muito de ação, de corpo. É uma coisa que nem sempre é tão cerebral, com várias exceções. Inclusive, no rock, existem trabalhos super cerebrais. Mas eu comecei a pensar que esse comportamento da experiência e experimentação viria mais de dentro para fora. Ela não estaria tão aparente, como às vezes ela entra no rock. Ela estaria mais dentro das estruturas do gênero musical. Então pegar esse gênero, tentar desconstruir um pouco, fugir da raiz desse gênero. Eu acho que isso está no disco. Existem faixas do disco ‘Entrevista’ que, se eu comparo com coisas de trabalhos anteriores meus, às vezes, têm propostas mais radicais do que quando eu estava fazendo rock. Mas tudo de uma forma natural, porque nem no rock, nem agora, isso foi tão elaborado nesse sentido de “quero romper com determinado tipo de música”. Não teve esse pensamento.

“Eu não tenho uma visão muito idílica das coisas. Tem um amigo meu que falou para mim: “Você é um falso romântico”. Eu acho que isso é uma definição boa, por que eu tenho uma visão às vezes meio desesperançosa sim, mas sabendo que você tem que conviver com isso, porque não estamos numa Disneylândia. E estou dizendo isso de um lugar privilegiado, imagine pra os outros.”

– Mas ao mesmo tempo você traz nesse disco alguns temas que não eram muito comuns em seu trabalho, você fala de violência, por exemplo. O que te estimulou, como você chegou a isso?

Eu sempre falei muito das coisas do dia a dia, mas talvez fossem mais baseadas nas relações amorosas, apesar de uma coisa ou outra fugir disso. Mas eu acho que sempre teve uma ponta de olhar para aquele mundo, sabendo que existe uma precariedade, sabendo que existe uma dificuldade de todo mundo estar vivendo aquilo. Eu acho que isso se expandiu nas letras desse disco. Tem isso em “Advinha”, tem isso em “O Inferno é Você”, mas, por exemplo, tem isso também em “Encabulando os Convidados”, que é um quase suicídio, é uma quase não existência mais, uma quase negação de você estar vivendo aquele momento, e também é um entendimento de que as coisas são assim mesmo, que é o que tem em “Noites de Goiabada”. Eu acho que isso está no disco, está em “Que Amor é Esse”, essa observação da dureza do cinismo, da dureza da precariedade da vida, não só das pessoas que passam dificuldade explícita, mas o fato das dificuldades também que não passam pela questão financeira, que não passam pela questão social Stricto Sensu. Que estão nas relações humanas mesmo, então acho que isso tem bastante no disco. Em algumas formas, vaza para essa questão pouco mais social. Eu falei de “O Inferno é Você”, mas acho que ela fala muito dessa coisa do julgamento, que também está em “Advinha”.

– Essas duas, especialmente, me parecem dialogar muito com o momento que estamos vivendo.

Eu acho que tem a ver com o fato do momento deixar isso tudo mais explícito. Acho que a gente está vendo mais. Mas acho que a crueldade é muito inerente, eu acho que essas duas faces estão sempre muito presentes no ser humano, em graus diferentes. Acho que isso está presente, na verdade, talvez desde a Ladrões, talvez desde a Saci, isso eu posso perceber. Eu não tenho uma visão muito idílica das coisas. Tem um amigo meu que falou para mim: “Você é um falso romântico”. Eu acho que isso é uma definição boa, por que eu tenho uma visão às vezes meio desesperançosa sim, mas sabendo que você tem que conviver com isso, porque não estamos numa Disneylândia. E estou dizendo isso de um lugar privilegiado, imagine pra os outros.

“Se tivesse esse tipo de música que está tocando, mas também mil outras coisas que estão acontecendo de música no país, eu não me incomodaria. O que me incomoda é porque fica focado e fica parecendo que a sociedade brasileira é meio infantil, nem é infantil, porque coitada das crianças, mas idiota mesmo.”

– A gente está vivendo esse momento que envolve todas essas discussões que estão à flor da pele, e ao mesmo tempo temos a música pop, que está em evidência, completamente despolitizada, que não fala muito desses problemas. Queria saber o que é que você acha disso, se você sente falta, se tem que ter, se está faltando posicionamento. Como você vê tudo isso, tanto o pop ter muito pouco, como se a classe artística devesse contribuir mais.

Eu acho que tem dois níveis de evidência. Tem essa que vai mais para as grandes mídias, pois as rádios e as TVs estão muito ligadas a um tipo de música que é completamente dessintonizada. É uma alegria meio paranoica, “temos que ser alegres, temos que festejar, temos que tomar cerveja”. (risos) É uma coisa meio esquisita até. Numa segunda etapa, as músicas que têm uma força política, que falam das minorias e tal, estão em ascensão e têm muito trabalho bom nesse espaço, como tem outros que não são tão legais, mas aí é em todo tipo de música. Esse segundo patamar, que a gente chama de música independente, as músicas dos festivais, eu acho que ganhou um espaço muito interessante. Mas eu acho que não necessariamente deve tem que se evidenciar essas questões. Não necessariamente a música tem que estar próxima de um panfleto, de um jornal, de um comunicado. Eu acho que pode perder a força, pode não ter tanta força. Eu acho que o importante é o artista estar nessa mutação, nessa instigação, querer instigar o ouvinte, querer quebrar algumas regras também, até suas próprias regras. Eu acho que isso é interessante. O que me faz mais falta é uma diversidade. Se tivesse esse tipo de música que está tocando, mas a tivesse também mil outras coisas que estão acontecendo de música no país, eu não me incomodaria. O que me incomoda é porque fica focado e fica parecendo que a sociedade brasileira é meio infantil, nem é infantil, porque coitada das crianças, mas idiota mesmo.

A banda Dziga Tupi que gravou o disco ‘Entrevista’, com Aline Falcão, Ronei Jorge, Carla Suzart, Ian Cardoso e Maurício Pedrão.

– E não é só na música, na televisão, em vários aspectos a gente está esteticamente cercado disso.

Eu sempre acho que a televisão aberta seria um meio fantástico, tem um poder muito grande ainda hoje, assim como a rádio. São dois lugares de poder muito grande e em determinado momento, em determinada época, haviam pessoas ali dentro que não estavam tão preocupadas, ou estavam divididas com outras que estavam preocupadas, com o Ibope e, consequentemente, com grana, com retorno e tal. Então tinha o que chamo de infiltrados no sistema, os doidinhos ali dentro, e eles subvertiam totalmente o que era passado. Eu acho que, em alguns momentos, a televisão ainda tem isso, às vezes em algumas séries, em alguns momentos de novelas, se tem essa lucidez, em alguns programas de entrevista, aparece essa lucidez. Mas é muito pouco, acho uma pena, um desperdício enorme de uma possibilidade de mudança. Porque eu acredito que quem está fazendo televisão e rádio tem uma certa obrigação de curadoria, de estar mostrando o novo. É como se você dissesse assim: “isso que você está ouvindo e vendo é legal, mas será que você não pode gostar disso?”. E não “isso que você está ouvindo e vendo é legal e vou te dar mais do que você está ouvindo e vendo”. É uma retroalimentação permanente.

– Hoje estamos vendo uma linguagem muito direta, até mesmo nesse nosso cenário independente. O Rap mesmo é muito marcado por isso. Você sente falta de uma linguagem menos literal?

Você vê que tudo é o lance da evidência. Por um tempo, eu fiquei achando que esse artista que não dá as coisas tão na cara, não tem essa mensagem tão direta, estava meio em extinção. É impossível que esteja, porque tem vários assim, só que eles não estão em evidência, alguns até estão. Se você pegar Siba, que eu acho um letrista e compositor fantástico, ele é um cara que trata o texto de forma direta e indireta, faz um jogo com aquilo maravilhoso. Pega a tradição e modernidade, está tudo ali funcionando, orgânico. Tem Domenico também, que eu acho que é um cara que trabalha com isso de uma forma brilhante, com uma abstração, uma visão abstrata tanto de som, quanto de texto. Manuela Rodrigues, acho que também faz isso. Tem vários artistas. Giovani (Cidreira), a Maglore que tem um texto super direto, mas, ao mesmo tempo, tem um sabor pop, um sabor de comunicação muito bom. E você vê também nesses textos diretos. Tem uma diferença também. Tem artistas que trabalham com esse texto direto, mas que têm um olhar particular para aquilo. Ele não olha exatamente o que está na cara, ele olha, mas faz um comentário, mesmo sendo direto, que é perspicaz, que não estava tanto na cara. E a gente pensa, realmente não tinha sacado isso.

– Quando a Ladrões de Bicicleta estava em evidência, foi mais ou menos naquele período do Los Hermanos, hoje a gente vê o sertanejo universitário, esse pop funk se sobressaindo. Como você se vê inserido nisso e como vê o mercado atual, para você e para quem está num universo mais parecido com o seu?

Isso me parece uma coisa meio cíclica. A gente viveu o rock dos anos 80, nos anos 90 teve uma coisa mais pop, paralelamente a gente sabe que o samba nos anos 80 já tinha força também de mercado. Hoje, eu acho que o Hip Hop tem uma força muito grande. Ele pegou esse lugar do rock para juventude. Para o jovem ou o adulto mais jovem, essa linguagem pegou por excelência e também por estar em voga com o momento. É um momento muito importante também, de emancipação muito forte, e o rap é um veículo, como foi o rock. O hip hop acho que talvez com mais força, porque é um veículo que pega a galera da periferia com muito mais força talvez que o rock, pelo menos no Brasil. Mas é o que eu falei antes, eu não gosto muito quando fica só uma coisa. Da mesma forma, quando era só música brasileira com rock, só rock’n’roll pesado, só hip hop, só rap. Por que aí começa a entrar um monte de gente que está ali só para aproveitar, beber daquela fonte. É chato, o panorama começa a excluir quem não é. Naturalmente, as pessoas começam a colocar um som que é meio artificial. Agora uma coisa interessante, é que a canção, no sentido mais tradicional, ela se afasta um pouco, em detrimento da produção. Eu acho que as produções tomaram uma força muito grande. Temos discos super bem produzidos, mas às vezes não têm tanta força assim. Isso tem chamado muita atenção, a produção musical.

– E como é que você se vê nisso, por que seu disco é bem produzido, tem um cuidado com arranjo, tem cuidados que hoje a gente não vê tanto, com harmonias, com vários vocais e tem conteúdo. Como é que você se vê, como se insere nisso?

Eu nunca parei muito para pensar em como eu me coloco. É um exercício que eu faço, mas quando você faz o disco, pelo menos para mim, é uma coisa que flui mesmo, é uma necessidade normal, como você precisa espirrar. Você precisar fazer a música, você precisa juntar aquelas pessoas. Não tem jeito de não fazer, você tem de fazer. Mas eu acho que depois de feito, você entende onde é que você está e, entendendo onde que você está, hoje acho que estou num lugar que não está tanto em evidência. Porque assim, meu disco tem uma super produção. Pedro Sá é incrível, um grande produtor, mas a opção estética é por um som mais orgânico. Ele tem muitos músicos tocando. Todo mundo tocou numa sala ao vivo. É outro tipo de sonoridade, é uma coisa que às vezes não aparece tanto. Nesse sentido, eu não estou contra a corrente, por que existem outras pessoas fazendo, mas a gente não está na corrente em evidência.

“Sinto que o público daqui ainda é muito acanhado para curtir as coisas daqui. Parece que você tem que ir pra fora para as pessoas gostarem.”

–  A gente vê esse mercado independente nos últimos anos ganhando força, os festivais se consolidando, as casas de shows não têm ainda tanta estrutura, mas já temos mais opções, como você vê essa mudança? Você tem pelo menos 20 anos dentro disso, qual sua visão?

Vou trazer o que eu falei sobre composição. Minha visão é um pouco realista. Acho que a gente vive muito o que aparece, o que a realidade propõe para gente. Salvador, sem dúvida, se a gente for olhar para trás, tem mais casas de show, tem donos de casa interessado em fazer isso, mas você vai conversar com eles, há uma dificuldade incrível para manter essas casas, principalmente com o trabalho autoral. E sem esse trabalho autoral não se cria uma cena, não se cria um cenário musical, não cria uma cara que o estado da Bahia está mostrando para o Brasil. Eu acho que agora é um grande momento musical, temos vários artistas novos muito bons na Bahia. Falo grande momento não porque não tivessem grandes artistas antes, a gente teve, mas as coisas estão se encaixando agora, porque pintou um olhar também de lugares que trabalham o mercado, que é São Paulo e Rio, nesse sentido maior, de expandir isso. Entrou em confluência, tem uma relação próxima agora, mas eu sinto que o público daqui ainda é muito acanhado para curtir as coisas daqui. Parece que você tem que ir pra fora para as pessoas gostarem. Para o que você tem de produção e até de crescimento, de cena, com casas, produtores se movendo e tentando fazer com que as coisas funcionem, acho que essa relação público-artista ainda é muito acanhada.

– Você acha que o público não dá conta e não se interessa tanto pelo que tem aqui?

Isso é um papo gigante. Mas de cara a gente pensa em algumas coisas. A gente, que viveu o período do Axé no ápice, acha que Salvador virou um lugar muito festivo, você tem um período de festa muito grande, então a relação entretenimento/arte com festa é muito forte, está na vida das pessoas. Quando as pessoas saem de casa têm muito esse sentimento de “quero participar de uma festa” e não “quero assistir um show” ou “quero assistir uma peça de teatro” ou “quero assistir um filme”, entre outras manifestações artísticas. Isso me incomoda um pouco, isso dá um cansaço no artista, porque ele vai fazendo, aí a casa fica meio vazia, você faz um trabalho de anos, está fazendo aquilo por uma necessidade. Porque não dá para dizer assim, “Por que você não vai trabalhar com outra coisa?”. Arte é tipo uma doença, você pegou essa porra, você vai conviver com ela. Você não vai acordar um dia e dizer: “Ah Meu Deus, vou ser bancário”. Você vai ser bancário, mas vai continuar compondo, não vai ter jeito. Eu sinto um pouco esse distanciamento do público para o trabalho. E eu não posso admitir que o trabalho que se faz aqui não é tão bom. Eu acho que temos música de altíssimo nível sendo feita em Salvador, de todos os estilos, de artistas mais velhos, artistas mais novos. Acho que tem produtores que estão com desejo, estão se envolvendo, mas sem um fomento desse público, sem um cultivo desse público, sem esse povo começar a entender que pode ser legal ele sair para assistir um show, se ele não entender… Eu acho que faz parte disso também a rádio, a televisão, fazer o público se acostumar com isso. A lógica que tem que mudar.

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