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Entrevista Julico: “a gente faz música porque ama mesmo”

À frente da The Baggios, como vocalista e guitarrista, Julio Andrade, mais conhecido como Julico, vem desenvolvendo um dos trabalhos mais relevantes dentro do atual rock brasileiro. Agora, ele estreia sua carreira solo com ‘Ikê Maré’, álbum que mergulha em outras sonoridades e mostra referências menos vistas em sua banda de origem. Nessa entrevista, o artista sergipano fala dessa nova fase de sua carreira, do disco e do desafio e amor pela música e pela arte.

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– Gostaria que você falasse da concepção do disco, como surgiu a ideia de fazer um trabalho solo, qual foi a instiga pra isso?

Julico – Essa ideia do disco solo veio de uns dois anos pra cá. Eu já pensava em aproveitar mais essa onda das músicas que sobravam da Baggios, que depois não faziam tanto sentido. Sempre tem uma demanda grande de músicas que eu vou fazendo, mas num álbum cabem poucas músicas. O fluxo de lançamento é de dois em dois anos, às vezes três, e nesse intervalo, muita coisa muda na cabeça. Muita referência nova vai surgindo, e com isso acabo descartando muitas músicas. E aí eu queria ter um um projeto paralelo, que eu não sabia ainda como ia chamar, se ia levar meu nome, se eu ia botar algum outro nome diferente ou um pseudônimo. Mas no final das contas eu resolvi botar meu nome, porque eu acho interessante assumir, né? Eu ficava muito nessa dúvida sobre colocar meu nome como título de uma banda ou projeto. Mas pensando no meu nome como um apelido, como todo mundo me conhece, como já tenho relação com a música há muito tempo, eu achei que caberia e fui levando. Inclusive, a música título desse álbum, “Ikê Maré”, foi feita em Itaparica, onde eu estava passando um final de semana. E, coincidentemente, foi justamente no final de semana que eu lancei o “Vulcão” da Baggios. E aí eu fiz essa música na beira da praia, viajando muito esse universo das águas, da imensidão, dos fluxos, das marés, da rotatividade dos ciclos da maré. Eu associei muito aos ciclos da vida, aos momentos e fases que acabam trazendo pra gente coisas boas, ensinamentos, às vezes consequências ruins, às vezes consequências boas. Foi bem interessante essa onda e foi o meu ponto de partida para o álbum. Assim como “Peleja Amor”, que foi uma música que eu tinha escrito para o Sesc Canção aqui de Aracaju, como um projeto solo. E foi assim que eu comecei a arquitetar um álbum, já que tinha muitas músicas engavetadas, meio encaminhadas, e outras eu fui desenvolvendo com o tempo. Já com a proposta de fazer um disco mais segmentado na música brasileira ali dos anos 70, com aquela influência do Soul, do Samba Soul e do Funk e também pegando um pouco do que eu gosto da música gringa, como Funkadelic e o Curtis Mayfield. Essas referências acabaram sendo um fio condutor do álbum como um todo. Minha instiga maior foi essa, de fazer um álbum segmento com mais ligação com a música negra, principalmente quando falamos da música negra que engloba o Soul, o Funk, o Blues e a música da África. Eu acho que tudo isso tá na Baggios, só que de uma maneira diferente. E eu queria deixar uma coisa um pouco mais evidente. Sobre o lance do conceito do álbum: “Ikê Maré” foi o nome que me veio assim pela questão da métrica, da sonoridade, dos sons que a melodia impõe. Eu vou botando sons que parecem palavras, mas ainda não são. E aí me veio esse nome que tem um pouco de yorubá, mas ao mesmo tempo não é. Eu vejo como um respeito muito grande e como uma forma de simbolizar uma entidade, uma força da natureza. Isso tem muito a ver com com a cultura afrodescendente. Pra mim, Ikê Maré é um ser, uma força da natureza que representa o tempo. O tempo e suas virtudes, o tempo e as suas consequências, seus ensinamentos. Vejo Ikê Maré como uma entidade mesmo, um ser tipo um oráculo que vai te trazer respostas, de uma maneira às vezes árdua, às vezes de uma maneira subliminar. Então está tudo muito amarrado nesse tema, o álbum todo.

“O que eu gosto muito na música e na arte é justamente a liberdade de criação. De poder criar o que eu realmente acredito, o que realmente me toca, e o que vai me fazer feliz. Não simplesmente para alcançar likes e seguidores, números.”

O disco traz sonoridades mais diversas que o Baggios, isso tem a ver também com quem toca no disco? Quem mais esteve presente nessa concepção e produção?

Julico – A concepção do álbum partiu de mim mesmo. Eu acabei tocando grande parte do disco, com exceção da bateria que foi tocada por Ravi Bezerra. Ravi é um músico que já me acompanha nas gigs “MPPB”, que é “música pra pagar o boleto”. Ele está muito ligado ao samba rock e à Música Popular Brasileira. Foi um cara que eu confiei muito em trazer para o projeto, porque ele traria a leitura dele para as músicas e eu achei isso massa. Então, eu acabei desenvolvendo as músicas no quarto mesmo, fazendo a pré-produção, gravando de uma forma mais crua. E depois, em fevereiro, eu gravei a bateria. Tem até uma coisa curiosa: Eu gravei a batera na beira do rio. Um amigo meu, Dudu Prudente, tem uma casa na beira de um rio. Ele é engenheiro de som e também produtor, e me ajudou a captar bateria numa casa simples, sem muito tratamento. Foi muito simbólico pra mim porque o disco fala muito daquele contexto, dos rios, dos mangues. Pra mim isso tem muito a ver com as minhas lembranças da infância e da adolescência, porque como eu sou do interior, eu costumava muito ir para os rios. Pirava muito naquele ambiente e naquela vibe. Mas esse lance da concepção do álbum partiu muito da minha vivência com a música mesmo. Na verdade, eu sempre ouvi muito Tim Maia, Jorge Ben, Paulo Diniz, toda essa galera que bebe muito da fonte do Soul, mas trouxeram a brasilidade dentro do som deles. Eu tô ouvindo muito agora o Antônio Carlos & Jocafi, o MPB4, que tem o lance do baião, mas tem o samba muito forte. Tem alguns discos até mais experimentais. Então, é algo mais da minha rotina de ouvir música. Tem períodos que eu ouço muito mais esse tipo de som, e nos últimos anos eu tô indo muito mais músicas brasileiras. Acho que 70% dos discos que eu tô trazendo pra minha coleção é música brasileira. Apesar de continuar sempre ouvindo muito Blues e Rock, a música brasileira tomou conta da minha vida e de parte do meu processo criativo. Isso aconteceu de forma natural, e eu produzi o disco sozinho. Eu fiz essa concepção, toquei violão, guitarra, baixo e comecei meus primeiros registros com teclado também. Trouxe para a produção o Rafa, que toca com a Baggios e tocou uma música no álbum. Trouxe também Léo Airplane que tocou três músicas, mixou e masterizou o disco. Tiveram as participações também. O Curumin, que é uma referência muito forte para esse trabalho e é um cara que já brinca com essas sonoridades, com essas referências há um tempo e eu admiro muito ele. A Sandy Alê, que é uma cantora aqui de Aracaju que eu piro demais. Pra mim, ela fez um dos trabalhos como cantora mais interessantes dos últimos anos. A Winnie (Souza), que já participou do “Brutown”, e eu trouxe ela com mais presença ainda para esse álbum. Ela é uma cantora com a voz negra, com toda imponência e toda força que voz negra carrega naturalmente.

Você fala das lembranças, dos rios, do ambiente interiorano, dessa brasilidade, que você fala que tem tanto ouvido. Acha que esse é um caminho inevitável para essa produção “independente”, midstream ou acha que ainda há espaço para diversidade? Digo isso pensando que esse seu trabalho se diferencia do Baggios, essencialmente por se distanciar um pouco do rock. Isso é algo que te preocupa, te move ou incomoda?

Julico – Então, é curioso isso, porque uma das coisas que mais me impulsionou a fazer esse trabalho foi o lance de eu fazer algo sem um parâmetro de trabalho anterior. Sem uma pressão gerada por uma repercussão do trabalho anterior, o que acontece com a Baggios. Eu queria sentir um pouco o lance do recomeçar, de começar do zero, sem me prender a muitas expectativas. Eu queria simplesmente lançar um álbum. E eu queria fazer justamente um álbum caseiro, com a pretensão de soar próprio sem ter passado por um grande estúdio. Sem ter um grande investimento por trás daquilo. Mas no processo da música, o processo acaba sendo diferente pra mim, porque eu levo a música muito a sério e sou muito detalhista. Então eu não consigo fazer algo completamente despretensioso, porque eu gosto de lapidar, trazer uma sonoridade muito boa. Mas não pensando especificamente em mercado. Pra mim, é difícil me colocar como compositor tendendo a seguir um mercado. O que eu gosto muito na música e na arte é justamente a liberdade de criação. De poder criar o que eu realmente acredito, o que realmente me toca, e o que vai me fazer feliz. Não simplesmente para alcançar likes e seguidores, números. Porque a música hoje em dia, de alguma maneira é medida através de números. Se é um grande artista, ele tem que ter milhões ali no Spotify, milhões de views no YouTube. E se e eu fosse ligar muito pra isso, acho que Baggios nem continuaria fazendo música. Não existiria mais, porque a gente é uma banda que está sempre no meio. Não queremos estar no subsolo completamente, mas também não estamos no topo. Eu acho que existem várias outras formas de se sentir no mainstream. Existem vários mainstreams na minha cabeça. Esse “midstream” eu entendo que é a cena independente, e não está na TV de grande alcance, mas está se fazendo acontecer, lotando shows, fazendo turnês fora e tudo mais. Então, eu acho que a música tem espaço pra tudo. A diversidade é fundamental pra qualquer cena musical, pra mim é até melhor ainda quando se tem coisas diferentes. Então, esse trabalho é fruto de uma atitude minha mesmo, de realmente me ver recomeçando. Fazendo algo que realmente eu queria fazer há muito tempo porque eu gosto dessa música. Queria fazer algo mais limpo, sem muitas guitarras narrando, ditando e sendo protagonista. Porque eu gosto do lado cancioneiro, eu gosto de Zé Ramalho, gosto do Alceu Valença, do Paulo Diniz. Eu acho que tudo isso é fruto do do que eu ouço, do que eu ouvi crescendo em casa. Foi só minha busca de soar diferente. Eu não queria fazer um projeto que parecesse The Baggios, só que levando meu nome, né? Eu queria que realmente soasse diferente, que tivesse outra linguagem mesmo tendo minha mão ali.

“Eu acho que a gente faz música porque ama mesmo. Não tem nada de nada que possa te barrar. Acho que nem o lado financeiro, nem o midiático, nada vai conseguir parar uma pessoa que realmente ama o que faz.”

Esse nosso cenário “independente” tem essa possibilidade de liberdade, permitindo que se priorize a arte, o cuidado estético. Até de entender que ainda tem sentido lançar disco e não apenas singles. Isso é muito importante. Mas ao mesmo tempo como se sustentar, como encarar uma realidade pouco sustentável? Pergunto isso pensando no pré-pandemia, e agora mais ainda pensando nessa nova realidade.

Julico – Eu não sei fazer outra coisa senão isso. Eu acho que é o que me mantém realmente vivo. Eu não sei, eu estou fazendo justamente de uma forma intuitiva, sem muito planejamento para o futuro, não sei o que nos aguarda. É o que eu preciso fazer nesse momento para não entrar numas bads. Então eu estou agindo como se as coisas estivessem funcionando, chegando às pessoas. Eu acho que a música além de me alimentar de forma espiritual, ela também pode ajudar as pessoas. Todas as músicas desse disco também têm um apelo social, político, espiritual. Traz mensagens, e eu acho que posso ajudar alguém de alguma maneira. Acho que eu estou fazendo algo sem muita expectativa do futuro a médio, longo prazo. Agora sim, eu tenho planos. Eu quero lançar esse álbum em vinil, quero produzir os clipes dele. Inclusive, tem um clipe pronto da música “Eu são”, que foi o último single que eu lancei. Esse clipe eu fiz em casa, eu tinha comprado uma câmera no meio do ano e comecei a experimentar. Eu gosto muito dessa parte audiovisual, gerei esse clipe e quero fazer outros de outras maneiras, me reinventar… É um desafio, a gente vive um desafio diário agora, né? Em relação à parte financeira, é outra questão. Ainda bem que eu tenho amigos que chegam junto e eu não sou uma pessoa muito consumista. Eu vivo no meu limite aqui, pagando meu aluguel, mas sempre tem uma grana guardada para urgências. Então, essas granas têm me ajudado a financiar esse trabalho. Às vezes, entra um dinheiro aqui, de uma produção independente, me chamam para participar de um trabalho em publicidade, ou também rola um edital e assim a gente vai seguindo. É uma vida de incertezas. Assim como qualquer disco, qualquer material da arte que você lança, tem essa insegurança e essa dureza, essa dificuldade de botar em prática. Por isso é muito fácil os artistas se frustrarem quando tem um trabalho em que deu seu melhor mas não conseguiu resposta de nenhum jornalista, não foi convidado para nenhum festival… Entendo completamente a frustração dessas pessoas e eu tenho que me preparar para isso sempre. Quando eu lanço um disco eu também fico super “cabreiro”, por mais que eu esteja amando aquele trabalho. Dei o meu melhor, foi um mergulho muito profundo, me dedicando diariamente e, de repente, o disco não chegou em ninguém. Não teve notoriedade, não teve repercussão, não consegui botar meus planos em dia com aquele trabalho. É como se fossem dois anos “perdidos”. Não perdido completamente porque o fato de tentar já é um grande acontecimento. Mas, enfim, eu me coloco numa posição assim também. É bem complicado, cara. Eu acho que a gente faz música porque ama mesmo. Não tem nada de nada que possa te barrar. Acho que nem o lado financeiro, nem o midiático, nada vai conseguir parar uma pessoa que realmente ama o que faz. Se essa pessoa não tem força suficiente para se manter ali, é mais complicado, chega uma hora que a pessoa realmente cansa, cede e desiste.

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