Para quem gosta de música sem preconceitos - el Cabong

Entrevista: Andressa Nunes revela seu sertão em disco de estreia

Natural da cidade de Campo Formoso, localizada entre o sertão e a Chapada Diamantina, a cantora e compositora Andressa Nunes lançou este ano seu primeiro álbum, ‘O Mandacaru Intergaláctico’. No trabalho, ela faz um passeio por suas referências que remontam a infância, mas dialogam por suas vivências em Pernambuco e Belo Horizonte, onde vive atualmente.

VEJA TAMBÉM:

Entrevistas: Jadsa e João Meirelles falam de ‘Taxidermia’.
Entrevista: Conheça The Moon Expresso e seu novo álbum.
– Entrevistas: Flerte Flamingo e seu novo EP.
– Entrevistas: Silvio de Carvalho fala de estreia solo.

Depois de EPs e singles com sonoridades diversas, Andressa consolida uma proposta coesa, tendo o sertão como tema. Um sertão, no entanto, com seu próprio olhar, que remonta ao baião, mas também arrocha e rock psicodélico. Carregado de leveza e lirismo, ao mesmo tempo político, pós-moderno e tecnológico. Nessa entrevista, Andressa Nunes fala sobre esse sertão como conceito do disco, sobre o processo para construção da obra, a carreira e muito mais.

____________________________________

Andressa NunesQuem: Andressa Nunes
O Que: Disco ‘O Mandacaru Intergaláctico’
Formato: Digital 
Onde: Spotify, YouTube, Deezer
Por quem: Independente
Preço: Audição gratuita

____________________________________

– Primeiro, gostaria que você contasse como foi a concepção do disco. Há um conceito nele?

Andressa Nunes – A concepção se deu num processo bastante pessoal meu, apesar de não ser um álbum confessional no sentido estrito do termo. Eu reuni canções muito antigas, como “Correnteza” e “Manequim”, que fiz há uns 10 anos atrás, a canções muito recentes, como “Zói de Capitu” e “De Partida”, a que abre o disco. Estou há um tempo buscando compreender o que é ser mulher no sertão, como é estar inserida nos dialetos e na linguagem sertaneja e como isso me atravessou. O conceito do disco é justamente esse: enxergar o sertão em várias de suas nuances, evidenciando o valor do saber sertanejo, utilizando-o como metáfora para a constituição emocional do sujeito e demarcando o lugar da mulher nesse belíssimo sarapatel de coruja que é a cultura sertaneja contemporânea (que se globaliza e não se atém a estereótipos).

– Como foi o processo de composição, produção e gravação do álbum?

Andressa Nunes – As composições foram reunidas numa linha de raciocínio que talvez não transpareça na estética dos arranjos (não sou mulher de escolher gêneros musicais), mas que está demarcada nas letras. Começo partindo (Em “De Partida”) para uma viagem ao sertão – o de dentro da gente- e termino o disco em “Mandacaru Intergaláctico”, a faixa título, de onde decolo do sertão para uma viagem mais ampla no cosmos, na tecnologia e também no grande saber das pequenas coisas (Spoilers de trabalhos futuros!). É meu primeiro álbum e, apesar de morar há 4 anos em Belo Horizonte, eu quis voltar às raízes e gravá-lo em Juazeiro, mais perto dos braços do Rio São Francisco que homenageio no projeto e mais perto de Campo Formoso, minha cidade natal. Aportei logo no estúdio de Iago Guimarães, que também gravou comigo meu primeiro EP (‘Ternura Inquieta’, 2015), e que é multinstrumentista e excelente produtor. Eu já tinha uma ideia boa do que queria do álbum, das influências e confluências, e lá pudemos em duas semanas bem intensas gravar todo o projeto.

– Quais foram as principais influências durante esse processo de criação?

Andressa Nunes – Existe de rock psicodélico a música voz e violão nesse álbum. Ah, e tem arrocha também! Então as influências são bem plurais! Posso citar sem dúvida Rita Lee, Zé Ramalho, Tom Zé e a brilhante Cátia de França, por exemplo. Em alguns arranjos, Iago percebeu meu gosto pelo Jazz do Snarky Puppy e trouxe ao coração o Enio Morricone para completar a vibe “Bacurau” de algumas músicas, como em “O Absurdo”. Mas tem muito dos tropicalistas e uns sinais da nova MPB, principalmente nas três canções que formam a parte “aquática” e mais sentimental do projeto (“A-Mares”, “Canção de Amor à Beira do São Francisco” e “Correnteza”). Na lírica, acredito que eu trouxe muito das minhas pesquisas sobre o nordeste imaginário de Durval de Albuquerque, bem como um pouco de Marxismo, de mitologia grega e de psicanálise. O uso de algumas palavras bem regionais e o sotaque que eu fiz questão de demarcar, gosto de dizer que bebi de Guimarães Rosa e Elomar, mas também das canções de ninar das mulheres da roça. A minha intensidade em algumas letras acredito que é influenciada pelo repertório de Belchior, Ney Matogrosso, Elba Ramalho e das bandas de metal sinfônico que ouvi exaustivamente na adolescência. E a poesia que às vezes paira evoca de Manoel de Barros até Cecília Meireles, que eu sou é poeta, isso de música sou só eu correndo risco.

– Em tempos sem ficha técnica disponível, o disco contou com quem na produção, arranjos, ou mesmo em participações?

Andressa Nunes – Quanto à produção, gostaria de citar primeiramente o Iago Guimarães, que com seu talento e sua capacidade musical brilhante me ajudou a chegar nas minhas músicas de tantas formas diferentes. Eu e ele produzimos, arranjamos e gravamos o álbum em seu estúdio, o Casinha Lab, em Juazeiro-BA. Contamos também com a participação da banda Matingueiros, tradicional entidade cultural de Petrolina, através de Wagner, que trouxe tantas camadas com seus vários instrumentos tradicionais e com alguns insights preciosos. Sou muito grata a esses dois! Então foi basicamente isso, eu e Iago duas semanas o dia inteiro no estúdio, pensando e pesquisando e viajando.

– Como ele está sendo lançado e como encontrá-lo?

Andressa Nunes – Você pode encontrá-lo em todas as plataformas digitais. Eu não tenho empresária, produtora, nem nada do tipo. A realização do disco se deu por conta de um financiamento coletivo, que não deu muito certo, mas pelo qual sou muito grata. Então o lançamento dele se dá basicamente no boca a boca e depende de minha energia para divulgá-lo nas redes.

– Gostaria que fizesse uma análise da sua evolução musical desde o início da carreira até este disco.

Andressa Nunes – Esse álbum é meu primeiro e antes dele eu fiz alguns lançamentos pontuais mais como forma de experimentação do que outra coisa, já que a música tem sido uma atividade paralela por enquanto. Mas gosto de lembrar do meu primeiro EP, ‘Ternura Inquieta’, que tem canções mais voltadas para o indie, com alguma influência da MPB. Depois dele, lancei EP em inglês de Lo-Fi, lancei samba de protesto, música meio autoajuda, funk falando sobre cu e outras coisitas mais. Não busco uma linearidade e aproveito esse lugar de artista independente para me deixar livre para experimentar. Acredito que tenho evoluído no que tange a aprender a compartilhar mais minha arte e a me deixar influenciar por outras pessoas, outros artistas incríveis que tenho trocado ideias. Ah, mas gosto de ver que nesse último trabalho eu deixei vir a mulher sertaneja. Entender esse sertão que me habita através da canção foi um grande passo nas minhas elaborações pessoais e também nas minhas concepções estéticas. Ainda tenho muito a trilhar, mas o processo tem sido divertido.

– Porque em tempos de streaming ainda lançar um álbum?

Andressa Nunes – Porque eu quis contar uma história. Mas as músicas funcionam independentemente como singles, então o público não precisa se preocupar em absorver o conceito ou algo do tipo. Assim como eu fui livre nas minhas escolhas de repertório, fico feliz de ver meu público livre para ouvir só duas músicas e não entender o que se passa no resto, por exemplo. Apesar de algumas pessoas terem até teorias sobre a história do álbum, o que me empolga bastante pois deixei vários segredinhos nas letras!

– Quais os planos para tornar este trabalho mais visível diante de tanta coisa sendo produzida?

Andressa Nunes – Eu tenho fé no compartilhamento orgânico e no passar do tempo. Tento não me deixar sufocar pelas tendências de mercado nem entrar em desespero para dar visibilidade ao trabalho sem que haja realmente uma escuta dele por partes das pessoas. Gostaria de ter mais ouvintes? Claro que sim! Mas estamos em tempos sombrios, temos essa pandemia que não passa, uma situação política que lateja, então tenho paciência com os processos sociais para me colocar no mercado de forma mais intensa em um momento mais adequado. Tem muita coisa linda sendo produzida e bem divulgada pela música independente, mas como o trabalho aqui é de uma mulher só, prefiro respirar um pouco e ir de ouvinte em ouvinte conquistando meu lugar. Ser entendida – e não consumida – é a minha mais mirabolante pretensão.

6 Comentários

  1. Ana Eliza Reply

    É abertura de filme?
    Que lindeza de música, que lindeza de pessoa.
    Que bom conhecer você, Andressa!
    Que bom relembrar de sua cidade.
    O sertão baiano é um estado de espírito.
    Luciano, viva MUITO, man!
    E que a comida que vem da terra te faça mais forte e mais capaz de fazer o que você lindamente já faz.

  2. Pingback: Entrevista: Átila Santana faz disco sozinho e questiona valor da arte » Para quem gosta de música sem preconceitos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Log in