Para quem gosta de música sem preconceitos - el Cabong

Entrevista: andre L.R. mendes manda notícias de seu novo álbum

Veterano da cena musical baiana, andre L.R. mendes segue em alta produção há alguns anos. Foram sete álbuns desde 2011 até o mais recente, ‘Manda Notícias’, lançado em 2020. Isso sem contar sua ex-banda Maria Bacana, que surgiu em 1997 com um excelente trabalho e voltou rapidamente em 2018 com um segundo disco. Em todos esses trabalhos, andre tem como característica a capacidade de criar canções sobre o cotidiano, amores e dissabores com grande competência. Lançado no ano passado de forma totalmente independente e com o músico responsável por tudo do disco, composição, produção, instrumentos e voz, além de fazer os próprios clipes, ‘Manda Notícias’ é dos mais sólidos discos do artista. É sobre o álbum, seu processo de criação e produção, além de uma visão de como é lançar um disco em tempos de streaming que ele fala nessa entrevista exclusiva.

Veja também:

Os melhores discos brasileiros de 2020 segundo a imprensa.
– Entrevista: Marcela Bellas se encontra na batida do bolero.
– Entrevistas: Silvio de Carvalho fala de estreia solo.
– Discos: a obra sublime da Orquestra Afrosinfônica.
– Discos: Tangolo Mangos pega o caminho experimental em tngl_mngs.rar.

____________________________________

andre L.R. mendes

Quem: andre L.R. mendes
O Que: Disco ‘Manda Notícias’
Formato: Digital 
Onde: plataformas digitais (Youtube, Spotify e Deezer)
Por quem: Independente
Preço: Audição gratuita

____________________________________

– Gostaria que você contasse como foi a concepção do disco. Há um conceito nele?

andre L.R. mendes – O disco começou meio sem querer…no início da pandemia, estava com um outro disco, ‘O Rei dos Animais’, pronto e parado no estúdio, sem nenhuma previsão de quando lançá-lo…então pintou a música “Manda Notícias”, meio na inspiração mesmo, sem pensar em sequência de lançamentos…era só aquela música que era uma polaroid do momento: início da pandemia, do isolamento social, as incertezas e a vontade de saber como as pessoas queridas estavam naquela situação… então gravei muito rápido, sem rebuscar muita coisa e lancei…entre a composição e ela estar nas plataformas foi tipo uma semana ou um pouquinho mais. O que ficou desse lançamento foi uma sensação de reação sobre a frustração que eu estava sentindo com o disco que estava parado no estúdio e não tinha como lançar e uma outra sensação maior ainda: o bom uso do tempo de reclusão. Aí vieram mais dois singles até que eu tracei o plano de um single inédito por mês que seriam compilados em um álbum no final do ano. Não há um conceito claro no disco…não é um “disco da pandemia”…eu fiz questão de não falar só sobre isso porque eu tenho certeza que, quando esse período passar, tudo que for intrinsicamente ligado à ele, vai ficar um tempo “no ranço” pra todo mundo…o que a gente vai querer é seguir em frente e deixar esse período pra trás…então o disco tem uma temática muito variada: tem crônica política, tem vassalagem amorosa, tem realismo fantástico…

– Como foi o processo de composição, produção e gravação do álbum?

andre L.R. mendes – Todo o disco foi gravado num ipad, utilizando apenas um microfone, um violão e uma guitarra. Tudo composto, gravado, tocado, cantado e produzido por mim…da composição à feitura do videoclipe, eu fiz tudo…eu adoro essa parada de “faça vc mesmo”…acredito cada vez mais que essa é a minha verdade…chegou na minha vida por falta de recursos financeiros pra bancar as gravações das canções na velocidade que eu compunha e terminou sendo um modo de lidar com minha música: tudo que está ali sou eu, erros e acertos são meus. Eu sou verdadeiramente independente: eu consigo fazer toda a cadeia da música sozinho, da composição ao show. E isso é libertador.

– Quais foram as principais influências durante esse processo de criação?

andre L.R. mendes – Música popular brasileira, principalmente os cantautores: Belchior, Chico, Gil…e literatura latino-americana: Gabriel Garcia Marques e Jorge Amado.

– Em tempos sem ficha técnica disponível, o disco contou com quem na produção, arranjos, ou mesmo em participações?

andre L.R. mendes – Como eu disse na resposta anterior: só tem eu no disco!

– Como ele está sendo lançado e como encontrá-lo?

andre L.R. mendes – Ele foi lançado no início de novembro, junto com um videoclipe inédito e fiz um lançamento oficial com uma live/show no instagram dia 27/12/20…o disco está disponível em todas as plataformas de música e no youtube pra quem não assina nenhum serviço de streaming.

– Gostaria que fizesse uma análise da sua evolução musical desde o início da carreira até este disco.

andre L.R. mendes – Eu vim do Rock, sou cria dos anos 1990…foi quando comecei minha carreira com a Maria Bacana…mas quando eu me lancei em carreira solo, em 2011, eu já estava de saco cheio de tocar o mesmo estilo…já nem ouvia mais tanto Rock assim…muitas outras coisas chegaram pra ficar na minha cabeça mudando minha direção como ouvinte e, por consequência, como artista…Meu primeiro disco ‘Bem-vindo à Navegação’ é um primeiro passo pra essa reinvenção musical. De lá pra cá, lancei 7 discos tentando ter como norte artístico a leveza e uma tentativa de elegância. Meu foco é a canção: letra, melodia e harmonia, principalmente a letra (que é o que mais me interessa como ouvinte também).

– Porque em tempos de streaming ainda lançar um álbum?

andre L.R. mendes – Acho que, pra mim, um disco tem um peso artístico de um livro. Singles são textos lidos rapidamente…como se fosse uma matéria de revista, jornal ou site…e ouvir um disco tem algo parecido com o mergulho num livro, com seus capítulos que contam uma história…mesmo que seja um livro de crônicas de temas diversos mas que tem como fio condutor a digital do escritor. Não pretendo entrar na moda de lançar apenas singles…simplesmente não é a minha enquanto artista.

– Quais os planos para tornar este trabalho mais visível diante de tanta coisa sendo produzida?

andre L.R. mendes – Eu faço tudo que posso pra divulgar meu disco…compreendo que é tão importante quanto escrever uma boa música trabalhar na divulgação…então eu bato nas portas dos jornalistas e sites, peço pauta, apresento meu trabalho…se eu tivesse grana, pagaria uma assessoria de imprensa, faria um plano de divulgação “quente”…mas essa não é a minha realidade, então todo dia eu luto por uma matéria, um post num perfil que fale de música pra amplificar o alcance da minha música…eu realmente faço música pra todo mundo ouvir…música é comunicação! Mas assim: todo dia é uma luta e uma invenção…essa é uma marca do artista independente no nosso tempo. Também fiz duas lives esse ano, que é o show que pode ser feito atualmente…aprendi a fazer um show interessante sozinho, só eu e minha guitarra…aprendi a usar tracks pré gravados…então pretendo fazer shows nesse formato assim que os shows ao vivo voltarem quando estivermos todos vacinados.

1 Comentário

  1. Victor Castro Reply

    Parabéns, André, você é um dos compositores mais talentosos daquela geração soteropolitana dos anos 90 que a Bizz chamou à época de “acarajé beat” (numa referência à cena recifense, que havia ganhado mais notoriedade alguns anos antes). Ouvi algumas faixas desse disco novo, e achei ótimas, têm o seu DNA de criar uma semântica de auto-reflexão poética dentro de figuras de linguagem aparentemente desconexas a um primeiro olhar. E o mais agradável de suas músicas, embora não seja essa sua visão, é a forma como a letra se encaixa numa melodia sempre agradável. Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Log in