Para quem gosta de música sem preconceitos, numa visão a partir da Bahia - :: el Cabong ::

Documentário revela força e contradições do rap soteropolitano

Em apenas 19 minutos, o documentário ‘Salcity’ mergulha num universo cada dia mais rico, forte e representativo das ruas de Salvador: o Rap e a cultura hip hop. Sem pretensão de ser definitivo e nem abordar todos os aspectos da cena local, o filme faz um rápido, mas bom panorama da produção local. Com participações de nomes da nova e da antiga geração, artistas como Baco Exu do Blues, Vandal, Cintia Savoli, Galf (Ugangue), Mobbiu (ex-Versu2), Dimak, Dj Leandro Vitrola, Opanijé, entre outros, tratam desde os problemas sociais de Salvador à importância do movimento rap na cidade.

Leia também:
A caprichada e imperdível primeira leva de clipes baianos de 2017.
Entrevista: O afrofuturismo de Dr. Drumah em novo disco.

Não poderia ser diferente num filme de rap, não dá para dissociar a música da realidade social, ainda mais numa cidade como a capital baiana, com uma enorme população negra, mas muito pobre e oprimida, e uma desigualdade assustadora. Por isso estão lá temas como racismo, guerra de facções do tráfico e a crua realidade de Salvador. A partir desses motes, o filme mergulha no rap soteropolitano, em como ele se tornou mais agressivo, da força que tem tomado, da invisibilidade na mídia e de seu papel.

Para Douglas da Nóbrega, um dos diretores do filme, quem melhor tem feito essa radiografia dos problemas sociais em Salvador é o rap e o pagodão. Não por acaso, são os gêneros musicais mais produzidos e ouvidos nos guetos, favelas e subúrbios da capital baiana. “No Brasil, é quase uma regra que quando a periferia tem voz ela vem para reclamar o que é dela por direito. Seja problemas sociais ou uma visão própria sobre amor, sexualidade, homossexualidade, política, felicidade, festa, entre outros assuntos”, afirmou em entrevista via internet.

A ideia de fazer um documentário registrando o rap soteropolitano começou quando Nóbrega juntou o dinheiro que ganhava com freelas, pegou uma câmera emprestada e caiu na estrada de São Paulo à capital baiana registrando a produção. Encontrou Dimak, um mestre em graffiti e rap do hip hop de Salvador, que contou diversas histórias do começo do hip hop em Salvador e do que estava rolando na cena atual. Aquilo acendeu o desejo de registrar a história e a importância do movimento. Naquele momento, a música ‘Sulicídio’ do baiano Baco Exu do Blues causava furor na internet e no rap nacional. A frustração é que a maioria das pessoas não teria entendido o que eles estavam querendo falar e os problemas que eram abordados na música. Foi o que faltava para fechar a ideia de documentar o que estava acontecendo no rap de Salvador.

Em busca do reconhecimento – Se o documentário exalta o rap na Bahia, ele não se furta de falar também dos problemas, contradições, da desvalorização da produção local e das diferenças do que é feito no Nordeste em relação ao do Sul/Sudeste. Douglas da Nóbrega diz que a maior motivação de fazer o documentário é deixar um registro para as próximas gerações da cena local e contribuir para o rap da Bahia continuar no processo de fortalecimento. “Tem muita gente boa que as pessoas não dão moral. Gostaria muito que os MCs, DJs e produtorxs recebessem mais oportunidades depois do documentário. A minha expectativa é receber mais comentários iguais ao de um menino daqui da Bahia que não conhecia a própria cena. Ele disse que depois do documentário abrimos a cabeça dele para ouvir novos artistas daqui”.

Se o rap local anda cada vez mais forte e ocupando bem os espaços de representatividade, ainda está longe de se tornar profissional e viável como modo de vida para os envolvidos. “Acho que está caminhando para isso, porém pouquissimxs MCs, DJs e produtorxs conseguem sobreviver de rap. Houve uma maior abertura da mídia, de alguns contrantes de show e dos fãs pra consumir o rap baiano. Mas isso ainda não converteu em rende e estabilidade para ganhar mais força”, diz Nóbrega.

Resultado de uma iniciativa da produtora de conteúdo Marra, o documentário foi lançado via youtube (assista abaixo) e é apenas o primeiro focado no gênero. “Estou planejando fazer mais trabalhos sobre a cena hip hop, mas ainda não tenho nada concreto. Provavelmente elas vão se materializar no final do ano. Infelizmente a vontade é muita, mas a grana é pouca”, explica o diretor.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Log in