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Documentário passa história da Axé Music a limpo

Nos anos 80, a Axé Music inaugurou uma música pop brasileira com origem e apelo popular, que se consolidou na década seguinte e abriu as portas para um mercado que se tornou predominante até hoje. Forró eletrônico, arrocha, sertanejo universitário, todos eles, de certa forma, beberam daquela fonte e utilizam aquela lógica e formato vindos das ruas e estúdios de Salvador. Mal compreendida pela crítica, a Axé Music nunca foi bem explicada, mesmo tendo revelado uma infinidade de artistas, alcançado números assombrosos de vendas e permanecido forte por décadas. Agora, o documentário ‘Áxé – Canto do Povo de um Lugar’, que estreou em janeiro em 40 salas no país, joga luz nesse cenário e tenta contar melhor essa história.

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Confundida como movimento, ritmo musical e indústria, a Axé Music é um pouco de tudo isso e é dessa forma que o diretor Chico Kertész tenta decifrar o que foi aquilo que aconteceu na Bahia, tremeu as bases do mercado fonográfico e continua relevante até os dias de hoje. Através de dezenas de entrevistas e depoimentos, imagens de arquivo e um trabalho cuidadoso, ele explica, em pouco mais de 100 minutos, a história dessa música autenticamente baiana. Depois das telonas, o filme deve seguir para televisão, com o tempo estendido e aproveitando mais os depoimentos e imagens que não entraram no longa. A ideia é transformá-lo em uma minissérie de cinco capítulos e levá-lo ao ar ainda este ano, na TV fechada.

O documentário é cuidadoso em contar desde a origem da Axé Music, numa sequência divertida de quem seria seu pai, mostra o surgimento do trio elétrico e dos blocos afro, passa pela primeira explosão com Luiz Caldas e Sarajane e pela história de como se chegou ao nome de batismo. Apesar da ausência de Lazzo, da pouca participação de Margareth Menezes, entre outras, o filme tem muitos méritos. Valoriza a importância de nomes como Gerônimo, Neguinho do Samba, Wesley Rangel e Ramiro Musotto, mostra algumas diferenças rítmicas, o papel das rádios e como tudo surgiu de forma espontânea das ruas da capital baiana.

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Em sentido horário: Show histórico de Daniela Maercury no MASP, na Avenida Paulista; Michael Jackson gravando com Olodum no Pelourinho; Banda Mel no Programa de Xuxa e Sarajane no programa de Chacrinha.

Segue mostrando o auge e sucesso absoluto, com uma sequência de artistas que explodiram nacionalmente, como Daniela Mercury, É o Tchan, Terrasamba, Timbalada e Carlinhos Brown, e até internacionalmente, como Olodum, com registros das parceiras com Michael Jackson e Paul Simon (inclusive com cena incríveis no Central Park, em Nova York). E vai até o momento atual, com os novos nomes, como Ivete e Claudia Leitte. Ouve quase todos os envolvidos, empresários, produtores, jornalistas, músicos e até os ‘padrinhos` Caetano Veloso e Gilberto Gil. Consegue relatos exclusivos, e muitas vezes surpreendentes e hilários, de nomes menos badalados e outros mais conhecidos como Daniela Mercury, Luiz Caldas, Bell Marques, Carlinhos Brown, Beto Jamaica e ‘Cumpade’ Washington, Ricardo Chaves, Marcio Vítor, Ivete Sangalo, Saulo, entre outros.

Além dos depoimentos, as imagens de arquivo são um dos trunfos do documentário, que comprovam a origem popular e espontânea da Axé Music e a força regional que possuía antes de se tornar fenômeno nas mãos da indústria. Fruto de uma pesquisa intensa, essas imagens foram também a maior dificuldade na construção do filme. “Tivemos que recuperar fita U-Matic mofadas e digitalizá-las”, conta o diretor. Estão lá momentos históricos da Axé Music, desde a presença de alguns dos artistas em programas de TV baianos e no então fundamental programa do Chacrinha até o histórico show de Daniela Mercury no vão do Masp, na Paulista.

Mesmo sem mergulhar fundo ou mesmo tocar em pontos polêmicos, como os métodos de atuação da indústria fonográfica ou o uso dos artistas pelo poder político, ou ainda como a Axé Music se tornou uma espécie de monocultura devoradora na Bahia, o documentário consegue abordar pontos importantes e dar um panorama do que é esse movimento vindo da Bahia. Kertész alega que a proposta não era se ater a estes pontos mais polêmicos e que tocou no que acredita ser importante e relevante para esta história. Assim mesmo, mostra as brigas, desentendimentos, o modo de atuar da indústria, e passa, mesmo sem se aprofundar tanto, por alguns dos motivos que levaram ao momento atual, que, segundo o diretor, não é de crise, mas de renovações.

Até então, poucos filmes, livros ou mesmo estudos haviam se debruçado sobre essa produção importante da música brasileira. Foi justamente isso que motivou o cineasta estreante a fazer o filme. “Não havia um documento que desse a dimensão e importância dessa parte da cultura brasileira. Eu queria que alguém já tivesse me contado essa história, como não havia, eu mesmo contei”, explica Kertész. Em Salvador, a história tem ainda mais importância e o público tem reconhecido isso. O filme tem sido sucesso, com salas lotadas, gente chorando e muitos aplausos nos fins das sessões. Se a Axé Music não é mais tão soberana como já foi, sua história continua emocionando, e o tempo e o distanciamento ajudam a entender aquilo tudo melhor.

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