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Discos: Teago Oliveira em sua estreia solo

O cantor e compositor da Maglore, Teago Oliveira lança ‘Boa Sorte’, seu primeiro disco solo, explorando as interseções entre o pessoal e o político, reverenciando e referenciando a música popular brasileira.

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Por Julli Rodrigues*

Projetado no cenário local e nacional como vocalista, guitarrista e compositor da banda de rock Maglore, Teago Oliveira faz uma incursão em uma sonoridade mais ligada à MPB em seu álbum de estreia solo, ‘Boa Sorte’. O álbum, lançado em setembro de 2019 e produzido pelo próprio Teago em parceria com Leonardo Marques, traz 11 composições, sendo dez autorais. As faixas parafraseiam e dialogam com o legado de grandes medalhões da canção brasileira do século XX, ao mesmo tempo em que estabelecem uma ponte com a Bahia, terra natal do artista hoje radicado em São Paulo. Temáticas ligadas a relacionamentos, melancolia, introspecção e críticas sociais permeiam as letras do álbum.

Teago bebe de diversas fontes de outrora para compor o caldeirão sonoro apresentado em “Boa Sorte”. Na faixa de abertura do álbum, “Bora” (Teago Oliveira/Luiz Gabriel Lopes), é nítida a influência do samba-rock de Jorge Ben. “Azul, Amarelo” (Marceleza de Castilhos), única que não é assinada pelo artista, evoca bem de leve o espírito “baianidade pop” das canções gravadas pelo grupo A Cor do Som nos anos 80, além de trazer no refrão vocalizações que lembram a banda mineira 14 Bis.

Intertextualidade

Já na épica “Movimento das Horas” (Oliveira), a interpretação de Teago para uma das mais inspiradas letras do disco mescla introspecção e visceralidade. Uma audição mais atenta revela que o arranjo guarda semelhanças com o de uma gravação bem específica: “Bodas de Prata” (João Bosco/Aldir Blanc), cantada por Elis Regina durante um especial de televisão em 1976, com arranjo de César Camargo Mariano.

Em ambos os casos, a guitarra começa discreta, servindo de “cama” para a voz, até que uma ambiência de cordas – sintetizadas ou não – ajuda o arranjo a crescer e serve de fio condutor para a interpretação explodir, emocionada. A energia das duas músicas é a mesma, embora tratem de temas bem diferentes. O compositor baiano explora a questão do autoconhecimento como ferramenta para se relacionar com o outro e com o mundo. Enquanto Bosco e Blanc trazem à luz o drama de uma mulher traída e resignada com sua situação.

‘Explorando as interseções entre o pessoal e o político, reverenciando e referenciando a música popular brasileira de outros tempos, Teago Oliveira constrói, em “Boa Sorte”, uma estreia consistente, com bom apelo pop.’

E já que a parte lírica entrou em pauta, vale citar a intertextualidade presente em “Corações em Fúria (Meu Querido Belchior)” (Oliveira), lançada como primeiro single do álbum. Por sinal, o compositor cearense que serve de matriz e inspiração para a faixa era um grande adepto da prática de citar outras obras em suas letras. Alusões que iam desde Caetano Veloso a Olavo Bilac, passando por John Lennon. Teago faz caminho semelhante ao dialogar com “Fotografia 3×4”, “Velha Roupa Colorida” e “Sujeito de Sorte” para dizer que, mesmo que ainda haja perigo na esquina no Brasil de hoje, os tempos mudam e o novo sempre vem.

O novo, nesse caso, é uma questão política e comportamental expressa nas “moças que não fingem mais” e se sentem livres para viver o próprio prazer e a própria vontade; nas “pessoas podendo se amar” e na escolha de poder beijar o garoto ou a garota que dorme no sofá. O pessoal é político, como já diz a ativista Carol Hanisch, no contexto feminista.

Saudade da Bahia

Também é política a leitura do cotidiano trazida pela tropical e bem-humorada “Últimas Notícias” (Oliveira/Castilhos), que cita Pelé e Gilberto Gil para fazer uma crítica social em tempos de capitalismo cada vez mais selvagem. A faixa, que encerra o disco, deixa para seus últimos versos a referência a logradouros do Rio Vermelho, retomando uma ligação com a Bahia que já havia sido apresentada antes, mais precisamente em “Longe da Bahia” (Oliveira), terceira música da tracklist. Nela, Teago bebe diretamente da musicalidade praieira de Dorival Caymmi para falar da saudade de sua terra.

Esse elo territorial, inclusive, é semelhante ao estabelecido pela conterrânea Pitty no álbum “Matriz”, também lançado neste ano. Na faixa “Bahia Blues”, a cantora e compositora também fala da condição de sentir falta do local de origem e da consciência de que essa nostalgia só é possível após um distanciamento. A diferença é que Pitty cria essa relação através de um mergulho em si mesma e em suas lembranças, enquanto Teago traz uma abordagem mais “externa” e geral. Duas formas originais e válidas de tratar dessa “baianidade” que está sempre aqui.

Explorando as interseções entre o pessoal e o político, reverenciando e referenciando a música popular brasileira de outros tempos, Teago Oliveira constrói, em “Boa Sorte”, uma estreia consistente, com bom apelo pop. O artista baiano demonstra disposição para expandir seu universo musical, ao mesmo tempo em que explora a própria subjetividade. O resultado é promissor.

Ouça ‘Boa Sorte’:

* Julli Rodrigues é jornalista formada pela UFBA. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter. Apresenta a série mensal “A Música no Tempo” no Especial das Seis da Educadora FM, sobre o contexto da MPB entre os anos 60 e 80, e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas.

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