Para quem gosta de música sem preconceitos - el Cabong

Discos: Illy apresenta Elis em cores novas, porém diluídas

Entre erros e acertos, cantora Illy ousa em ‘Te Adorando Pelo Avesso’, disco que traz releituras de clássico de Elis Regina.

Por Julli Rodrigues*

Após uma boa estreia com o álbum ‘Voo Longe’, de 2018, a cantora baiana Illy ampliou seus horizontes musicais e pousou no repertório de Elis Regina, registrado no disco ‘Te Adorando Pelo Avesso’, lançado no último mês de abril. O título – emprestado de um dos versos de “Atrás da Porta”, canção de Chico Buarque e Francis Hime imortalizada pela Pimentinha – e a capa – que usa como referência visual o LP ‘Elis’ de 1973 – já entregam que a intenção da artista é trazer uma espécie de “subversão” da obra de Elis.

Veja também:

Discos: Ian Lasserre equilibra delicadezas e clichês em ‘Átimo’.
40 álbuns lançados nas últimas semanas para nos salvar.

O material de divulgação reforça essa ideia, ao definir o disco produzido pela própria Illy em parceria com o guitarrista Guilherme Lirio e o baixista Gabriel Loddo como uma experiência “ousada”, com som “autêntico e impactante”, “diferente de tudo que já se ouviu em tributos”, com direito a participações de Silva e Baco Exu do Blues. De fato, não se pode negar que ‘Te Adorando Pelo Avesso’ entrega essa “nova cara” para 12 composições gravadas por Elis Regina, com acertos principalmente nos arranjos. Mas Illy ainda fica devendo o “avesso”: o que há é mais uma diluição do que uma revolução, principalmente quando se fala da interpretação das músicas.

Peço licença para quebrar meu estilo mais “impessoal” e abrir um parêntese, porque a próxima informação é importante para que este texto seja melhor compreendido. Sou fã de Elis Regina há quinze anos, daquele nível que não só conhece a obra como também a vida. Daquele nível capaz de identificar em que ano foi feita uma foto da artista só pelo cabelo que ela está usando. Fãs de Elis têm fama de chatos, eu sei, mas juro que vou tentar equilibrar meu lado fã com meu lado “crítica” e trazer uma análise que use o repertório elisiano mais como referência do que como cânone intocável. Vamos a ela, então.

Acertos

Como dito no início do texto, ‘Te Adorando Pelo Avesso’ acerta principalmente na qualidade dos arranjos e traz algumas abordagens curiosas e bem-vindas. Gostei da ambiência festiva ao final de “;Dois Pra Lá, Dois Pra Cá” (João Bosco/Aldir Blanc) e da roupagem dançante de “Fascinação” (F. Marchetti/M. de Feraudy, versão de Armando Louzada) com elementos de funk melody. No caso desta última, o tratamento divertido e descompromissado “conversa” bem com o uso ambíguo que Elis fez da música nos dois espetáculos nos quais a apresentou.

No ‘Falso Brilhante’, em cartaz entre 1975 e 1977, a canção é usada dentro do contexto de “sonho” e “magia” que supostamente envolve a trajetória de um artista, com arranjo que recria as modulações e o estilo de uma velha valsa dos anos 40, o que não deixa de ser uma referência à formação musical da própria Elis. Já no ‘Transversal do Tempo’, montado entre 1977 e 1978, “Fascinação” aparece com uma roupagem mais densa, logo no início do show, com o propósito de cortar laços com o espetáculo anterior. Nem Elis nem Illy levam a música tão ao pé da letra, diferentemente dos calouros que vemos por aí nos The Voices da vida.

Também vale destacar a gravação de “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil), cujo arranjo lembra mais a musicalidade e o estilo do próprio Gil do que a abordagem elisiana de 1973. A guitarra suingada de Guilherme Lírio aparece em evidência, ao contrário do registro de Elis, marcado pelo piano de Cesar Camargo Mariano e pelo baixo de Luizão Maia. Ouvindo “Ladeira da Preguiça” na voz de Illy, logo pensei que o canto “cool” da baiana guarda algumas longínquas semelhanças com a Elis da chamada “fase técnica”, entre 1972 e 1974.

Nesse período, após ser tachada como uma cantora com “muita emoção e pouca técnica”, a Pimentinha gravou três discos – todos chamados “Elis” – nos quais trouxe um jeito de cantar mais contido, aprimorando as interpretações a tal ponto que passou a ser considerada “muito fria”. Illy tem um pouco mais de doçura na voz, o que leva a um bom resultado em faixas como “O Trem Azul” (Lô Borges/Ronaldo Bastos). Originalmente solar e “viajada”, a composição lançada por Lô Borges em 1972 só ganhou peso e densidade na voz de Elis, em 1980. A gravação de Illy resgata essa leveza e traz na guitarra e no piano elétrico alguns ecos do arranjo de Cesar Camargo Mariano.

Diluição

Por outro lado, se a doçura e a leveza de Illy são um trunfo em alguns momentos, quase sempre essas características se tornam uma fraqueza quando se trata da obra de Elis. Isso acontece porque jamais existiu apenas uma Elis Regina: para além do virtuosismo vocal, a Pimentinha era dotada de capacidade de interpretar as canções de fato, de tomá-las para si. Como ela mesma disse em uma entrevista, não lhe interessava ser “uma boa cantora a mais”. Assim, existe a Elis que sofre, mas também a Elis que debocha, a Elis que ri, a Elis lânguida, a Elis combativa. E é aí que Illy falha: ao não conseguir abarcar essa gama de emoções com sua voz, ela termina por “diluir” a carga inevitavelmente atrelada àquilo que Elis cantou.

Dá pra perceber um pouco disso em “Querelas do Brasil” (Aldir Blanc/Maurício Tapajós), que embora tenha um criativo arranjo samba-reggae, soa “cool” demais, sem a urgência que um recado do tipo “o Brazil tá matando o Brasil” merece. Falta deboche em “Alô Alô Marciano” (Rita Lee/Roberto de Carvalho) e em “Vou Deitar e Rolar” (Baden Powell/Paulo Cesar Pinheiro), mesmo que essa última traga a atitude “carefree” que a letra pede. Em “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá” (João Bosco/Aldir Blanc), Illy chega a soar mais blasé do que sensual.

Também falta volúpia em “Me Deixas Louca” (Armando Manzanero/ versão de Paulo Coelho), e nem a participação de Baco Exu do Blues ajuda a tornar o contexto mais “caliente”: deslocado do seu universo lírico, sonoro e temático, o rapper baiano não contribui muito, além de quebrar a métrica da letra em alguns momentos. Falando em “feats”, “Atrás da Porta” (Chico Buarque/Francis Hime) seria melhor sem Silva.

Entretanto, se há algo que pode ser considerado um grande equívoco em “Te Adorando Pelo Avesso”, certamente é a gravação de “Como Nossos Pais” (Belchior) em arranjo de ska, definida no material de divulgação como “ultramoderna”. Soa incômodo ouvir uma abordagem vocal e instrumental tão descompromissada para uma música que, por definição, é densa. A mim, causou a impressão de esvaziamento, assim como a versão reggae de “Comportamento Geral” (Gonzaguinha) feita por Elza Soares no último disco, ‘Planeta Fome’ (2019). Digo isso porque uma das lições que Elis tem a ensinar a todos os intérpretes é a necessidade de compreender aquilo que se está cantando.

A Pimentinha demonstrou isso na prática no show’Transversal do Tempo’ ao modificar “Saudosa Maloca” (Adoniran Barbosa), transformando um samba animado em uma música de andamento lento, com clima sombrio e tenso, o que causou estranheza na época. Questionada sobre a mudança durante o programa Vox Populi, na TV Cultura, Elis respondeu que cantou dessa maneira porque não achava graça da situação descrita na letra. “Eu não acho graça. Você estar em um determinado lugar e de repente em 24 horas você tem que sair sabe Deus pra onde. (…) A estória que está sendo contada tem de ter uma sonorização razoavelmente parecida com o que ela tá dizendo”, explicou. Ou seja, até a mais radical subversão precisa ter algo que justifique, e eu fico a me perguntar qual o propósito de tentar virar “Como Nossos Pais” do avesso apenas pela vontade de fazer algo moderno, ignorando a narrativa que está ali.

Em “Te Adorando Pelo Avesso”, Illy dança na corda-bamba entre a leveza e o peso de canções brilhantemente interpretadas por Elis Regina, se machucando ao não conseguir expandir sua gama de emoções. Talvez a cantora baiana se saísse melhor ao focar a escolha do repertório na fase técnica e introspectiva de Elis: seria interessante ouvi-la cantar composições como “20 Anos Blue” (Sueli Costa/Vitor Martins), do álbum de 1972, ou “É Com Esse Que Eu Vou” (Pedro Caetano), gravada pela Pimentinha em 1973. No saldo final, o que fica é a diluição da intensidade das interpretações e das letras, mesmo com alguns bons momentos. O avesso de verdade virou só promessa.

Ouça o disco

* Julli Rodrigues é jornalista formada pela UFBA. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter. Apresenta a série mensal “A Música no Tempo” no Especial das Seis da Educadora FM, sobre o contexto da MPB entre os anos 60 e 80, e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas.

1 Comentário

  1. Pingback: Entrevistas: Silvio de Carvalho fala de estreia solo » Para quem gosta de música sem preconceitos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Log in