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Discos: a obra sublime da Orquestra Afrosinfônica

Em seu segundo álbum, a Orquestra Afrosinfônica apresenta uma bela obra com o suprassumo da música afro-baiana. Com diversas participações especiais, como Mateus Aleluia, Gerônimo, Lazzo Matumbi, BaianaSystem e Dodo Miranda, o álbum é um dos principais lançamentos do ano na Bahia e ganha esse texto de Julli Rodrigues.

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Por Julli Rodrigues*

Segundo os dicionários da língua portuguesa, o adjetivo “sublime” é usado para designar algo magnífico, cujas qualidades ultrapassam o comum. Mais do que isso, algo “que transcende o humano”, que é divino. O maestro Ubiratan Marques e a Orquestra Afrosinfônica conseguiram sintetizar a ideia do sublime em forma de música no álbum ‘Orin: A Língua dos Anjos’, lançado em pleno Dia da Consciência Negra. Por meio de texturas riquíssimas que mesclam os toques africanos às cordas e metais, o segundo trabalho do grupo fala de ancestralidade, mas também de reencontro com o próprio eu, do ato de reconhecer-se enquanto indivíduo ao mesmo tempo em que se conecta com suas raízes.

‘Orin: A Língua dos Anjos’ é produzido por André Magalhães em parceria com o próprio Ubiratan Marques. No embalo do toque característico da orquestra, o álbum rebobina algumas canções já conhecidas, como a magistral “Nabeleli Yo”, de Dodo Miranda, interpretada pelo compositor, e o clássico da música baiana “Mameto Kalunga” (Gerônimo Santana/Silvio Ricarti/Ricardo Amaro), que conta com as vozes de Gerônimo e de Lazzo Matumbi. Há, ainda, uma versão mais longa e totalmente orquestral de “Água” (Antônio Carlos/Jocafi/Ubiratan Marques/Roberto Barreto/Russo Passapusso), faixa de abertura do terceiro álbum do BaianaSystem, o elogiado “O Futuro Não Demora”. Se no trabalho do grupo a Orquestra Afrosinfônica era a convidada, agora a lógica se inverte. O fato é que, seja qual for a proporção da mistura, os universos de ambos sempre se fundem de maneira agradável. Vale lembrar que o disco da Orquestra é um lançamento do selo do BaianaSystem, Máquina de Louco.

O álbum reserva, no entanto, surpresas além das belíssimas regravações. Há seis faixas inéditas compostas por Ubiratan Marques em parceria com o mestre Mateus Aleluia, que também participa como intérprete em três delas. Nessas músicas, nota-se como o nome do disco faz todo o sentido: no iorubá, “Orin” significa “canção” e é o nome dado às cantigas sagradas do candomblé. O ouvinte atento e dedicado certamente vai transcender a realidade ordinária ao mergulhar nesse universo, onde as línguas dos anjos, dos orixás e dos homens se tornam uma coisa só.

Nos versos das canções, há temas que vão desde o reconhecimento do lugar do homem em meio à natureza (“Como criar o que está criado / Repare, veja, tudo está”, em “Onde Estão As Borboletas?”) até o apagamento da identidade e da ancestralidade do povo negro por meio da escravização (“Me lembrei que antes de vir/ eu era um… Só um / Aqui cheguei chorando / Me habituei, esqueci de mim / Fizeram-me nós”, em “Eu Multidão”, com participação de André Magalhães). Queria muito entender os idiomas africanos presentes nas letras para capturar todo o sentido. De qualquer forma, tudo é muito vivo, pulsante e verdadeiro, e parte dessa atmosfera se deve também ao coro feminino formado por Tâmara Pessoa, Djara Mahim, Dinha Dórea e Raquel Monteiro. Vale destacar o belíssimo dueto de Tâmara com Mateus em “Meu Caminhar” (Ubiratan Marques/Mateus Aleluia). Algumas harmonias das canções de “Orin: A Língua dos Anjos” até me fazem pensar em composições de Milton Nascimento, pela vivacidade e pelo ar meio épico.

Com tamanha intensidade e verdade, cheguei ao final do álbum à beira das lágrimas, o que não acontecia há muito tempo. Só consigo pensar em como é bom ouvir uma música que honra essa matriz africana, bem executada e ao mesmo tempo com os pés bem fincados no chão. Uma música que está anos-luz à frente de qualquer pastiche de baianidade feito por meninos de apartamento que, devidamente instalados em São Paulo, dizem sentir “saudade da Bahia”. ‘Orin: A Língua dos Anjos’ é um disco para ouvir rezando e agradecendo pela existência de Ubiratan Marques e da Orquestra Afrosinfônica. Uma verdadeira dádiva.

* Julli Rodrigues é jornalista formada pela UFBA. Atualmente, trabalha na Rádio Metrópole FM como repórter. Apresenta a série mensal “A Música no Tempo” no Especial das Seis da Educadora FM, sobre o contexto da MPB entre os anos 60 e 80, e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas.

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