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Arrojado, show tributo atualiza obra de Ederaldo Gentil

Por Luciano Matos

Quando se decide homenagear um artista veterano da música brasileira com um tributo, existem dois caminhos: ou se vai pelo mais fácil, seguindo a tradição e se mantendo o mais próximo da obra original, ou se aposta em tornar aquele trabalho atual, aproximando para uma sonoridade mais contemporânea. No show em homenagem ao cantor e compositor Ederaldo Gentil, na última terça-feira (20), no Teatro Castro Alves, um dos maiores sambistas baianos da história, jovens nomes da música brasileira atual deram um novo olhar à obra do sambista. O pernambucano Zé Manoel, as cantoras Josyara e Larissa Luz e o grupo BaianaSystem interpretaram com maestria e colocaram personalidade própria a dez composições da lavra de Ederaldo.

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Com produção de Luisão Pereira, sobrinho do artista, o show foi um acerto desde a escolha dos convidados, passando pela banda, repertório e, especialmente, pelos novos arranjos criados para cada obra. Poderia haver um capricho ainda maior no aspecto visual, que ficou concentrado na exibição de imagens do artista e matérias de jornais, mas foi pormenor diante da riqueza musical apresentada.

Com uma banda base formada por Ênio Nogueira (violão, cavaquinho e guitarra), Aline Falcão (teclados), Ícaro Sá (percussão) e Luisinho do Gêge (percussão), além do próprio Luisão Pereira (contrabaixo e sintetizadores), o tributo mostrou o quão atual é a música do homenageado, mesmo que algumas delas tivessem mais de 40 anos. Alguém pode até ter sentido a ausência da Velha Guarda, de antigos sambistas, mas a proposta ali era claramente jogar a obra de Ederaldo para frente, olhando o passado com um olhar para o futuro.

 

A noite teve início com o pernambucano Zé Manoel ao piano, cantando o maior sucesso de Ederaldo, a belíssima “O Ouro e a Madeira”, seguida de outras duas dos primeiros discos, “De Menor” e “Barraco”. As duas primeiras mostrando algumas das principais marcas do homenageado, a humildade, a melancolia e a sensibilidade, assim como os versos profundos, enquanto a terceira no mesmo nível, mas com uma temática mais social e atualíssima. Com seu modo leve e marcante de cantar e seu piano suave e preciso, Zé Manoel já mostrava ali como a obra do sambista baiano iria ser tratada, com muito respeito e reverência, e mostrando o quanto ela permanece perene e não pode ficar no lodo da história. 

Foi dessa forma que cada um dos convidados chamou para si a responsabilidade e assumiu um pouco como suas aquelas composições. Em parceira com Luisão, eles criaram novos arranjos para as músicas, imprimindo suas marcas e proporcionando uma das mais sinceras homenagens que pode receber um artista. Atravessando o São Francisco, da Petrolina de Zé Manoel para a Juazeiro da jovem Josyara, o tributo prosseguiu em alto nível. Emocionada por cantar pela primeira vez num palco tão importante, a cantora, com seu jeito e sotaque, comoveu o público dando voz as belas “Eu e a Viola” e “Ironia”, uma das parcerias de Ederaldo com Batatinha, outro mestre do samba da Bahia.

Em outro momento comovente, Larissa Luz começou entoando à capela os belos versos de “A Saudade Me Mata”, como uma autêntica diva negra do jazz. Para logo em seguida discursar em homenagem à vereadora Marielle Franco e as várias mulheres engajadas e fundamentais, de Nina Simone a Dandara, e engatar os versos da certeira “Identidade”. “05342635 / é o meu número, o meu nome, minha identidade/ Mínimo salário é o meu ordenado / 12 horas de trabalho/ Que felicidade / que felicidade”. Apesar de ser uma música de mais de 30 anos, ainda soa atual como nunca, ainda mais com todas as propostas regressivas de Reforma Previdenciária. Larissa a assumiu com muita personalidade, mantendo o tom irônico e combativo, mas transformando em um pop contemporâneo, como ser fosse uma música de seu próprio trabalho. Na sequência, outra parceria de Ederaldo e Batatinha, “Agolonã”, transformou o ambiente numa grande festa de terreiro no século XXI.

O clima se manteve com os músicos do BaianaSystem – Roberto Barreto na guitarra baiana, Seko Bass no baixo, João Meireles nas programações e Russo Passapusso nos vocais -, imprimindo a própria sonoridade em composições produzidas originalmente há mais de 30 anos. A instrumentação e interpretação do grupo converteram o universo de sambas e afoxés de “Bereketê” e “Luandê” (parceria de Ederaldo como tropicalista Capinan) em duas músicas que podiam estar em qualquer disco ou show do Baiana.

Havia se passado pouco mais de uma hora de show, quando todos subiram ao palco para cantar “O Ouro e a Madeira” e deixar ecoando na cabeça de todos aqueles versos geniais que marcam a carreira de um dos grandes compositores de nossa história. “O ouro afunda no mar / madeira fica por cima/ Ostra nasce do lodo / gerando pérolas finas”. Ederaldo Gentil pode ter ficado à margem por um tempo, esquecido pela maioria. Pode ter nos deixado, em um estágio de depressão e isolamento. Mas uma noite como essa serve para separar quem tem apenas holofotes e quem pode permanecer eterno na história.

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