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A terrível morte da Axé Music que aposta em sub-funk e sertanejo

Para muitos a Axé Music nunca passou de uma moda que sempre assimilou os sucessos do momento. Não é bem assim. Gostando ou não, bandas e artistas tinham uma criação e produção vinculadas às ruas e manifestações culturais de Salvador e referência dos sons do Carnaval. As bandas Reflexus e Mel são bons exemplos disso, com muitas músicas vindas dos compositores dos blocos Afro. Ou até o Chiclete com Banana, que durante um bom tempo em seu início, dava seguimento ao frevo elétrico baiano e ao galope já presente nos trios elétricos.

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Documentário passa história da Axé Music a limpo.

É certo, que em algum momento de seu enorme sucesso popular isso foi ficando de lado. A insistência em fórmulas fáceis e a perseguição para repetir esses sucessos instantâneos passaram a ser a marca da indústria do Axé e de boa parte de seus artistas. O sucesso realmente se manteve, permanecendo como a música pop de maior sucesso no país, só que cada vez com menos cuidado nas composições. Por longos 30 anos deu certo.

Os tempos, porém, são outros, a Axé Music já não tem a mesma força e não detém mais a preferência do gosto do brasileiro, dando lugar ao sertanejo e ao funk. Não é de surpreender que entre as 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2017, nenhuma seja dos consagrados artistas baianos. Não é assim de agora, tem sido basicamente a mesma coisa pelo menos desde 2009, com algumas exceções. Desde 2011, nenhum artista ou música entra na lista de 50 mais tocadas nas rádios brasileiras e apenas seis entre as 100, nesses sete últimos anos, nenhuma delas em 2015. A última música a ter ficado entre as 10 mais tocadas nas rádios foi ‘Extravaza’, de Claudia Leite, com o décimo lugar em 2008. 

Mais chocante ainda são os números de shows. Há algum tempo não é a mesma quantidade de apresentações, mesmo durante o Carnaval. Os números caíram bastante, como mostramos aqui, já em 2016, numa matéria sobre a decadência dos blocos e o investimento nos trios sem cordas. Para lembrar, segundo as agendas das cantora Ivete Sangalo e Claudia Leitte no site Carnaxé, que reúne informações de vários artistas dessa música baiana de Carnaval, elas faziam entre 90 e 100 apresentações pelo país até 2013. Ivete ainda manteve o número em 2014, mas o número de shows Claudia caiu para 50. Atualizando os números, vemos que essa queda ficou mais clara nos anos seguintes, com pouco mais de 70 shows de Ivete em 2015, e nem chegando a esse número em 2016 e 2017. Claudia Leitte caiu ainda mais, para 40 em 2015 e cerca de 20 em 2016 e 2017.

Axénejo ou funkaxé  – Com isso tudo, os principais nomes da Axé Music tiveram que encontrar outros caminhos. Deixaram de lado as referências ao Carnaval baiano, os ritmos ligados à cultura afro, como o samba reggae e o ijexá, e toda a lógica que defenderam durante anos, passando a apostar numa mistura de ritmos baianos, especialmente pagode, com funk ou sertanejo. Para sobreviver, tiveram que apelar para uma sonoridade próxima ao sucessos avassaladores de nomes que dominam a preferência dos gostos populares.

As exceções do universo do Carnaval baiano são blocos afro, sempre resistentes, e nomes como Daniela Mercury, Saulo e Margareth Menezes, que ainda apostam em vertentes mais próximas ao que sempre desenvolveram na carreira. Bom ressaltar também que o mundo do pagode faz um trabalho à parte. Estabelecido, popular, dialogando com as massas e ainda se mantendo com parte da produção espontânea, passou a dominar o verão soteropolitano, ditando modas, lotando ensaios e criando os fenômenos carnavalescos.

Entre as estrelas e sub-estrelas da Axé Music é bem diferente. Atualmente, muitas das novas músicas deles seguem a linha funknejo, pagofunk e arrofunk, tanto no ritmo, quanto nos arranjos, temáticas e letras. Abandonaram muito do que a indústria do carnaval baiano vendeu durante anos. Nada de falar de “trio elétrico”, “carnaval”, de lugares da Bahia como “Farol da Barra”, “Gueto”, ou mesmo nome dos blocos que desfilam. No lugar disso, as tags passaram a ser “lacradora”, “paredão”, “chandon”, “balada”, “sarrada”, “pista”, termos típicos do funk e do neo sertanejo, agora incorporadas às letras dos artistas baianos.

Este apelo fica mais evidente com a busca de parcerias para conquistar um público mais amplo e evitar que se desconectem da turma mais jovem. Vários artistas estão juntando forças com outros nomes da música baiana, especialmente do pagode, ou procurando por estrelas dos sons da moda. Ivete, por exemplo, gravou com MC Livinho e com Wesley Safadão, Harmonia do Samba com Anitta, Léo Santana com Mc Charles, Cláudia Leitte lançou uma faixa com Maiara e Maraisa e vai lançar outra com PitBull. Entre as parcerias entre os baianos, Harmonia fez uma com Léo Santana, Ivete com Márcio Vitor, enquanto Durval Lélys apostou numa música com Cláudia Leitte como convidada.

A mudança da sonoridade no mundo da Axé Music ficou evidente este ano, com o diálogo com os ritmos da moda definitivamente passando a dominar os lançamentos. No rastro do sucesso de ‘Despacito’ e do funk, por exemplo, Claudia Leitte passou a apostar em misturas que enveredam por reggaeton, pop e o ritmo originário dos morros cariocas. A mudança é também voltada para o mercado internacional, já que a cantora possui empresários internacionais e seus lançamentos estão saindo pela gravadora americana Roc Nation. Prova disso, é que seu próximo disco contará com músicas em português, espanhol e inglês.

A música ‘Baldin de Gelo’ foi a primeira mostra dessa nova aposta. Como bem definiu um site, a faixa é uma espécie de “reggaeton tupiniquim com direito a versos em espanhol”, tem pouco a ver com o Carnaval baiano. A outra faixa do disco deve ser ‘Lacradora’, considerada pela cantora como uma continuação de ‘Baldin de Gelo’. Nela, Claudia Leitte recebe a dupla sertaneja Maiara & Maraisa como convidadas. A letra traz vários jargões da internet, utilizados pelo público mais jovem: “Copo na mão/ E as inimigas no chão/ Claudinha lacradora/ Dando nas recalcadas/ Enquanto a gente brinda/ Elas tomam pisão”, seguido de “Provoco o seu desejo/ O meu jeito maluca/ Lá vem chuva de lacre/ Prepara o guarda-chuva!/ Muita fechação/ E viva a curtição”. Tudo isso enquanto soa uma batida pop e referência às tendências musicas latinas da moda.

Veja abaixo Claudia Leitte no clipe ‘Baldin de Gelo’, que tem estética inspirada na série “The Get Down”.

Ivete Sangalo trilhou os mesmos caminhos. ‘À Vontade’, com Wesley Safadão, e ‘Cheguei pra te amar’, com Livinho, em nada lembram as origens da cantora e soam mais como tentativas de se inserir num novo mercado, ou como se salvar diante do domínio do funk e do neo-sertanejo. A primeira traz uma pegada pop, com uma introdução que remete a qualquer coisa, menos a Axé Music, e continua com uma batida eletrônica latina. A faixa tem um balanço mais próximo de outros ritmos, e à mistura de várias referências, que marca a música de nomes como o do convidado.

A segunda trafega ainda mais escancaradamente pelos ritmos latinos da moda. Para a gravação de ‘Cheguei pra te amar’, ela convocou o funkeiro para uma faixa dançante, com beats e eletrônica, e uma mistura de reggaeton e zouk. Em outra faixa ‘No Groove’, a cantora traz elementos que combinam mais com a festa de Salvador, com suingue, percussão e refrão para cantar atrás do trio elétrico. A faixa tem participação de Márcio Vitor.

Veja o clipe de ‘Cheguei pra te amar’, de Ivete Sangalo com MC Livinho

Entre os nomes do primeiro escalão, além de Ivete e Claudia Leitte, quem também seguiu esse caminho foi o veterano Durval Lelys com a música ‘Bela do Baile’, que conta com participação de Cláudia Leitte. Se “Dança da Manivela”, “Dança do Vampiro” e “Xô Satanás” tinham a irreverência como teor para justificar as letras mais pobres, ele agora segue a tendência do funk carioca para aos 60 anos dizer sem nenhum pudor: “Eu disse um/ Bota a mão na cabecinha/ Eu disse dois/ Bota a mão na barriquinha/ Eu disse três/ bota a mão na cinturinha/ Eu disse um, dois, três/ Prepara/ Não para/ Não para/ Para não para/ E vai vai!/ Bumbum pra lá/ Bumbum pra cá”. A tentativa de emplacar um novo sucesso remete não só na letra ao que o funk tem feito (tudo bem, ele mesmo já tinha feito coisas assim), mas especialmente no ritmo, uma mistura da batidas originárias dos morros cariocas, com pop e axé, beats eletrônicas e sonoridade metidas a moderninhas (até o assovio que tem marcado alguns hits do momento).

Veja Durval Lelys e sua ‘Bela do Baile’.

Se formos pensar nas apostas recentes da indústria do Axé em bandas e cantores vamos perceber que todas tiveram resultado frustrante. Um exercício rápido nos ajuda a lembrar de Patchanka, Voa Dois, Tomate, Alinne Rosa, Katê, Oito7Nove4, Banda Vingadora, e tantos outros. Não seriam eles, que não conseguiram crescer o esperado e ainda sofrem para emplacar hits, que deixariam de depositar suas fichas nas sonoridades da moda.

Os irmãos Rafa & Pipo Marques, filhos de Bell Marques, são um bom exemplo. Anteriormente conhecidos como a banda Oito7Nove4, eles se adaptaram e passaram a assinar como uma dupla, tentando se aproximar da lógica de sucesso do sertanejo. Mas não só isso, a música de trabalho deste ano é uma clara adaptação aos ventos do mercado. Eles já vinham flertando com o sertanejo, mas na música que estão trabalhando para este ano, tem de tudo, menos de uma banda de Axé. Pegando a expressão “Sarrando”, desenvolveram um pagofunk ao lado de Léo Santana, que traz uma letra “inspirada”, que fala até de “whisky” e “chandon”, os novos objetos de desejos da turma do axé.

A letra diz assim:
“Chegou tomando whisky com tequila e chandon
Essa menina é louca, é amarrada no meu som
Quando pinta aquele grave no meu paredão
Ela vai sarrando vai mexendo até o chão

Sarrando ham ham ham ham ham ham ham
Sarrando ham ham ham ham
Bumbum subiu!
Levantando ham ham ham ham ham ham ham
Sarrando ham ham ham ham”
Veja Rafa e Pipo Marques ft. Léo Santana com “Sarrando”:

A cantora Alinne Rosa segue a mesma lógica em sua nova aposta, ‘Aquele Fogo’. Um funk cheio de groove, que não lembra nada as ruas de Salvador. A letra segue também o mesmo caminho, falando de “Sarrar” e usando expressões “xóvens” como “Migs”: “Só peço proteção e alegria/ open bar de boy magia/ e que nunca nos falte aquele fogo” e “‘migs’ bota logo a ‘brusinha’/ que hoje vai ter festinha/ e eu tô louca pra sarrar”….

Alinne Rosa – Aquele Fogo

A banda Voa Dois insistiu durante um tempo, mas nunca decolou. A cantora Katê do grupo passou então a tentar emplacar uma carreira solo. Há 5 anos não conseguiu ir muito longe e assim como seus pares, depois de ver o Axé não dar mais muito certo, está apostando nos sons da moda, no caso dela, pode ser sertanejo ou funk, tanto faz. Vale o que for preciso. Tem música com batidas eletrônicas, tecladinho ou sintetizadores para soar moderninho, tem parceria com Claudia Leitte ou com MC Catra. E é uma marca, todas seguem aquele discurso pseudo-feminista, que tem dando certo com as chamadas feminejas. “Tô pro crime, tô/ Quer saber como eu tô? um perigo/ Quer saber onde eu tô? no perigo/ Celular desligado, e o boy me ligando/ Se ele imaginasse onde eu tô/ O bicho tá pegando/ Tô pro crime, tô”.

Ouça “Pisou em Mim”, com Katê.

Tem ainda a banda Duas Medidas, com “Câmera Lenta”, que conta com participação de Márcio Vitor. As tags aqui são “novinha”, “bumbum” e também segue uma linha que se aproxima de um pagofunk, com um suingue mais próximo do ritmo baiano.

Veja o clipe de “Câmera Lenta”, com Lincoln & Duas Medidas (Feat. Márcio Victor – Psirico).

É esperar para ver o que vai acontecer com estes artistas e quais serão suas próximas apostas.

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7 Comments

  1. Heráclito Reply

    Tudo realmente passa (além da ‘uva’) inclusive o FUNK e as próprias rádios, queiram ou não! Imortais são as obras que se eternizam por serem excelentes e nascidas para viver por toda a vida. Mas ‘excelência’ não é mesmo para qualquer um, tampouco qualquer modismo.

  2. Hilber Reply

    Os empresários infelizmente não estão a procura de novos cantores de Axé, daí podemos ver o declínio desse gênero musical e tem mais com o tempo o Axé foi elitizado para cantores que não vinheram de bairros humildes de Salvador e por conta disso o próprio povo foi criando uma falta de identificação com o gênero, o resultado disso é: A maioria do público de Salvador gosta de pagode ou funk porque os próprios cantores dessas bandas vinheram dos mesmos bairros do seu público.

    Atualmente as únicas bandas de Axé que colocaram cantores que vinheram do povo foi a Timbalada, Filhos de Jorge e o Chiclete com Banana (Khill).

    Não conheço nenhuma outra!
    Essa é uma parte da verdade.

  3. Daniel Reply

    Infelizmente muito desse declínio tem a ver com o próprio passado não muito distante de empresários que só visaram o dinheiro dos artistas e pouco se importaram com o que o movimento axé music representa.
    Os artistas eram totalmente fechados e competitivos, ajuda mútua não existiu, a falsidade no meio dessa gente sempre foi imensa. Era muito mais fácil excluir e inventar história de um artista do que apoiá-lo e recebê-lo bem se você já fosse um artista grande na indústria.
    Exemplo disso é a própria Claudia Leitte, última grande estrela do axé music, mas só é o que é hoje por esforços próprios. Qual outro grande artista a apoiou no seu início? Qual outro artista cantava suas músicas no trio? Ninguém! Isso era tudo receio de Claudia se tornar algo grande. Mistura de ego e claro, medo de perder público para o novo. A verdade que no axé ninguém se ajudou, o ritmo foi esquecido por conta de varios fatores, mas com certeza um dos maiores sempre foram: Empresários e ego.
    Sertanejo voltou às paradas justamente porque os artistas se apoiam, cantam músicas dos outros, fazem parcerias, tudo isso conta muito!
    Hoje, Ivete que sempre bateu no peito e falou “o brasil me ama porque eu fiz axé music” paga as contas fazendo parceria com Mc homofóbico.
    A hipocrisia, falsidade, ego e dinheiro que sempre movimentou a indústria do axé, music, é a mesma que hoje cava seu túmulo.
    O importante é continuar com o bolso cheio, o que sai pela boca, se colar, talvez vire mais um hit descartável.

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